Em 1988, o USS Samuel B. Roberts quase afundou no Golfo Pérsico após atingir uma mina iraniana — um episódio que expôs o poder desproporcional de ameaças de baixo custo e "invisíveis" em vias navegáveis estreitas. Décadas depois, o Estreito de Ormuz continua sendo o ponto de estrangulamento energético mais sensível do planeta, mas a arquitetura de sua segurança passa por uma mudança tectônica silenciosa. Segundo reportagens detalhadas inicialmente pelo Wall Street Journal, autoridades europeias estão elaborando uma estratégia pós-conflito para proteger o estreito — uma que exclui ostensivamente os Estados Unidos.
O plano gira em torno da estabilização do tráfego marítimo assim que as hostilidades regionais em curso arrefecerem. Seus objetivos são técnicos e econômicos, não puramente militares: um esforço coordenado envolvendo caça-minas e escoltas navais projetado para reduzir prêmios de seguro e restaurar a confiança dos grandes conglomerados de transporte marítimo global. Ao liderar uma coalizão de nações dispostas a participar, a Europa pretende contornar a dependência tradicional da hegemonia naval americana na região, priorizando a continuidade comercial em vez da postura militar.
A lógica estratégica da exclusão
A decisão de deixar Washington fora do arranjo não é acidental — é o princípio organizador do próprio arranjo. Por mais de quatro décadas, a Quinta Frota da Marinha dos Estados Unidos, sediada no Bahrein, funcionou como garantidora de fato da liberdade de navegação no Golfo Pérsico. Operações lideradas pelos americanos — da Operation Earnest Will no final dos anos 1980 ao International Maritime Security Construct lançado em 2019 — definiram o modelo de segurança para o estreito. Remover os EUA da equação representa um afastamento deliberado desse modelo.
A lógica é tanto diplomática quanto operacional. Planejadores europeus supostamente preveem algum grau de coordenação com o Irã, parceiro necessário para qualquer estabilidade de longo prazo na via marítima por onde passa diariamente cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. O histórico de Washington em campanhas de sanções de "pressão máxima" e confronto direto com Teerã — incluindo o ataque de 2020 que matou o general iraniano Qasem Soleimani — torna a participação americana um passivo potencial em qualquer iniciativa que exija aquiescência iraniana. Ao enquadrar a missão como um esforço neutro de estabilização voltado ao comércio, autoridades europeias esperam contornar a dinâmica adversarial que historicamente complicou os arranjos de segurança no Golfo.
Existe precedente, ainda que imperfeito, para operações de segurança marítima lideradas pela Europa em águas contestadas. A Operation Atalanta, da Força Naval da União Europeia, lançada em 2008 para combater a pirataria ao largo do Chifre da África, demonstrou que marinhas europeias conseguem sustentar uma presença operacional significativa longe de suas águas territoriais por períodos prolongados. Essa missão, contudo, operou em um ambiente diplomático permissivo e com amplo consenso internacional. O Estreito de Ormuz apresenta um desafio fundamentalmente diferente: a ameaça não vem de pirataria sem Estado, mas de minas colocadas por Estados e ativos navais dirigidos por Estados, e o interlocutor-chave — o Irã — nutre ressentimentos profundos em relação a várias das nações que provavelmente participariam.
Comércio, risco e os limites da autonomia
Os interesses comerciais em jogo são difíceis de exagerar. Quando as tensões no Golfo escalam, os prêmios de seguro de risco de guerra para petroleiros que transitam por Ormuz disparam, rotas de navegação são redirecionadas e os preços de energia se propagam por toda economia dependente do petróleo bruto e do gás natural liquefeito do Golfo. Uma operação crível de desminagem e escolta poderia, em tese, comprimir esses prêmios de risco e sinalizar aos mercados que o estreito está aberto para negócios sob um arranjo multilateral estável.
No entanto, a viabilidade do plano depende de premissas ainda não testadas. A disposição do Irã de cooperar com uma coalizão liderada pela Europa — em vez de encará-la como uma extensão mais branda da projeção de poder ocidental — está longe de ser garantida. Teerã historicamente usou seu controle geográfico sobre o estreito como dissuasão estratégica; ceder voluntariamente essa alavanca a uma presença naval estrangeira, por mais benignas que sejam suas intenções declaradas, exigiria uma mudança significativa no cálculo estratégico iraniano. Igualmente incerto é se as marinhas europeias possuem capacidade sustentada de contramedidas contra minas e escolta para operar de forma crível sem o apoio logístico americano, que discretamente sustentou a maioria das operações navais aliadas no Golfo por décadas.
A iniciativa é, em sua essência, uma aposta na autonomia estratégica — a ideia de que a Europa pode atuar como provedora independente de segurança em um teatro onde há muito tempo é sócia minoritária. Se essa aposta compensa depende menos dos caça-minas mobilizados do que da arquitetura diplomática construída ao redor deles: se o Irã enxerga uma saída, se os Estados do Golfo aceitam um garantidor não americano e se as capitais europeias sustentam a vontade política de bancar uma missão que carrega risco operacional real sem a rede de segurança americana por baixo.
Com reportagem de Xataka.
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