Na Lisboa de hoje, o atrito provocado pela transformação urbana acelerada é palpável. Nos bairros mais densamente povoados, o fluxo de turistas e imigrantes superou a capacidade da infraestrutura local. Os ônibus vivem lotados, a coleta de lixo não acompanha a demanda e um sistema de saúde sobrecarregado tem dificuldade para se comunicar com uma população cada vez mais globalizada. O resultado é um bairro que parece vibrante, mas que se torna progressivamente hostil — um lugar onde a falta de agência compartilhada se manifesta como frustração e divisão social.
Esse caos contemporâneo contrasta fortemente com um breve e radical experimento do urbanismo português: o Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL). Lançado em meados dos anos 1970, o SAAL foi concebido para apoiar populações mal alojadas na transformação de seus próprios bairros. Em vez de impor soluções de cima para baixo, o Estado fornecia técnicos especializados para trabalhar lado a lado com os moradores. Juntos, planejavam, protestavam e, em alguns casos, construíam coletivamente os edifícios que iriam habitar. Quando o projeto foi encerrado, em 1976, mais de 41.000 famílias estavam envolvidas num processo que tratava a moradia não como mercadoria, mas como ato cívico coletivo.
O legado do SAAL sugere que os espaços públicos são mais transformadores quando funcionam como lugares de "amizade cívica" — um conceito em que os moradores não são meros consumidores de serviços urbanos, mas participantes ativos no desenho de seu entorno. Quando os cidadãos perdem a capacidade de moldar o ambiente em que vivem, o bairro deixa de ser um projeto compartilhado e se torna fonte de exasperação. Recuperar a vitalidade de Lisboa — ou de qualquer cidade sob pressão — pode exigir o retorno a esse espírito participativo, em que a arquitetura da cidade se constrói sobre a colaboração de seus habitantes.
Com reportagem do Blog of the APA.
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