A história da fotografia de moda costuma ser contada como uma sucessão de avanços técnicos, mas suas transformações mais profundas sempre foram de ordem psicológica. Nesta primavera, duas grandes exposições — uma em Nova York, outra em Londres — investigam como a câmera serviu não apenas para documentar roupas, mas para desmontar e reconstruir a imagem feminina. No Metropolitan Museum of Art, Lillian Bassman: Bazaar and Beyond oferece um panorama abrangente de uma fotógrafa que passou décadas desafiando o status quo rígido de meados do século 20.

O trabalho de Bassman se define por uma abstração pictórica. Ex-diretora de arte da Harper's Bazaar, ela trouxe a sensibilidade de designer gráfica para o laboratório fotográfico, usando tons de alto contraste em preto e branco e técnicas experimentais de impressão para reduzir suas modelos a silhuetas elegantes e linhas gestuais. Sua abordagem era reconhecidamente intimista; Bassman buscava capturar a moda por meio do que chamava de "olhar feminino", priorizando a emoção íntima em detrimento das exigências clínicas do mercado comercial. A retrospectiva do Met traça essa trajetória desde seus primeiros projetos de diagramação até as raras impressões vintage que consolidaram seu legado.

Do outro lado do Atlântico, o diálogo prossegue com a mais recente encomenda de Nhu Xuan Hua na Autograph, em Londres. Enquanto Bassman atuou na era de ouro das páginas de revista, Hua representa uma virada contemporânea rumo ao surreal e ao arquivístico. Seus retratos, que já passaram pelas salas do Huis Marseille e do Les Rencontres d'Arles, combinam sua experiência na alta moda com uma realidade surpreendentemente imaginativa e muitas vezes distorcida. Juntas, as duas exposições mapeiam a distância entre o glamour estruturado dos anos 1950 e as fronteiras fluidas e conceituais da fotografia de hoje.

Com reportagem de Aperture.

Source · Aperture