Em Xerém, distrito de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, o dia de trabalho de Camila de Oliveira Vieira começa com uma coreografia complexa de horários de medicação, auxílio à mobilidade e preparo de refeições. Aos 35 anos, Vieira integra uma força de trabalho em expansão dedicada ao cuidado de idosos — função que exige, em partes iguais, resistência física e inteligência emocional. Para seus clientes, os aspectos técnicos do cuidado muitas vezes ficam em segundo plano diante de uma necessidade mais simples: a conversa, uma barreira humana contra o isolamento que costuma acompanhar o envelhecimento.

A trajetória profissional de Vieira reflete uma mudança sistêmica profunda no Brasil. Historicamente caracterizado por sua juventude, o país envelhece em ritmo acelerado, forçando uma reorganização rápida do mercado de trabalho e do tecido social. À medida que a pirâmide demográfica se inverte, a "economia do cuidado" deixa de ser um arranjo doméstico informal para se tornar um setor profissionalizado. Essa expansão não é apenas uma questão de logística sanitária; é uma recalibração fundamental do modo como o Estado e o setor privado valorizam um trabalho que foi historicamente invisível.

A ascensão do cuidador profissional evidencia um desafio mais amplo para economias em desenvolvimento: como garantir qualidade de vida digna a uma população que envelhece sem contar com a infraestrutura de estados de bem-estar mais consolidados. Para profissionais como Vieira, o trabalho é um equilíbrio de alto risco. Trata-se de uma profissão definida pela vigilância constante sobre o corpo e o espírito dos idosos — sinal de um futuro em que a tecnologia mais essencial do mercado de trabalho continua sendo o toque humano.

Com reportagem de Exame Inovação.

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