A expansão do gasoduto Transco — um dos maiores sistemas de transmissão de gás natural dos Estados Unidos, que se estende da Costa do Golfo ao Nordeste do país — esbarrou em um obstáculo jurídico relevante. Uma coalizão de cinco grupos ambientalistas apresentou petição a um tribunal federal de apelações para que revise e, potencialmente, invalide uma licença de qualidade hídrica emitida pelo U.S. Army Corps of Engineers. A licença autoriza obras em bacias hidrográficas sensíveis na Virgínia e na Carolina do Norte, e o questionamento levanta perguntas conhecidas, mas ainda sem resposta, sobre como agências federais equilibram o desenvolvimento de infraestrutura energética e a proteção ecológica.

No centro da disputa está a aprovação, pelo Corps, do método de construção por escavação a céu aberto ("open-cut") para as travessias de cursos d'água. A técnica consiste em escavar diretamente o leito de rios e córregos para instalar o duto, expondo temporariamente sedimentos e alterando padrões de fluxo. Os peticionários argumentam que o procedimento impõe riscos inaceitáveis a habitats aquáticos, à qualidade da água e a ecossistemas a jusante em bacias dos Apalaches — cursos d'água que sustentam biodiversidade e servem como fontes de abastecimento para comunidades do entorno.

Escavação a céu aberto e a lacuna regulatória

O método de escavação a céu aberto é uma das abordagens mais antigas e comuns para instalar dutos sob cursos d'água. É também uma das mais destrutivas do ponto de vista ecológico. Quando uma trincheira é aberta no leito de um rio, a perturbação libera sedimentos em suspensão capazes de sufocar áreas de desova de peixes, degradar a transparência da água e alterar a composição química da coluna d'água. Existem métodos alternativos — a perfuração direcional horizontal, por exemplo, permite instalar o duto sob o curso d'água sem romper a superfície —, mas são mais caros e tecnicamente complexos, sobretudo no terreno rochoso característico da região dos Apalaches.

O Army Corps of Engineers detém ampla autoridade sobre atividades que afetam águas navegáveis nos termos do Clean Water Act. Suas decisões de licenciamento, porém, são alvo recorrente de críticas de grupos ambientalistas, que alegam que a agência aplica escrutínio insuficiente à infraestrutura de combustíveis fósseis. O uso de licenças nacionais padronizadas (nationwide permits) — autorizações genéricas que cobrem categorias de atividade em vez de projetos individuais — tem sido um ponto de atrito particular. Críticos sustentam que essas licenças gerais permitem que projetos de grande escala escapem da análise ambiental específica que seus impactos cumulativos exigiriam.

O caso do Transco se encaixa com precisão nesse padrão. Ao mirar a licença, e não o gasoduto em si, os peticionários contestam o arcabouço regulatório que permite que projetos dessa natureza avancem com o que consideram salvaguardas ambientais inadequadas.

Uma tensão recorrente no licenciamento de gasodutos

A disputa judicial sobre as travessias de rios do Transco não é um caso isolado. Na última década, projetos de gasodutos no leste dos Estados Unidos enfrentaram questionamentos semelhantes na intersecção entre a autoridade federal de licenciamento e os padrões estaduais de qualidade da água. O Mountain Valley Pipeline, outro grande projeto de gás natural traçado por terreno dos Apalaches, enfrentou anos de litígio por causa de suas travessias de córregos e áreas úmidas, com tribunais por vezes anulando licenças e forçando atrasos na construção. Essas disputas criaram um corpo de precedentes que litigantes ambientais agora utilizam.

O contexto mais amplo é uma tensão estrutural na política energética americana. O gás natural continua sendo um componente significativo da matriz energética doméstica, e operadores de gasodutos argumentam que a ampliação de capacidade é necessária para atender à demanda e manter a confiabilidade da rede elétrica. Grupos ambientalistas rebatem que o investimento contínuo em infraestrutura fóssil consolida trajetórias de emissões incompatíveis com compromissos climáticos e impõe custos ecológicos localizados que os reguladores sistematicamente subestimam.

O desfecho da petição sobre o Transco dependerá de o tribunal de apelações considerar que o Corps conduziu uma análise ambiental adequada antes de emitir a licença. Se o tribunal der razão aos peticionários, o projeto poderá sofrer atrasos e ser obrigado a apresentar análises mais detalhadas e específicas para cada travessia de curso d'água. Se a licença for mantida, a decisão reforçará a discricionariedade do Corps na aprovação de métodos construtivos para projetos de gasodutos.

De qualquer forma, o caso ilustra uma dinâmica que não dá sinais de resolução: o sistema judicial funcionando como a principal arena onde as demandas concorrentes de infraestrutura energética e proteção ambiental são arbitradas, uma licença de cada vez.

Com reportagem de Inside Climate News.

Source · Inside Climate News