A loja de departamentos foi, por décadas, o templo definitivo do comércio democrático — uma promessa arquitetônica e social de que as melhores coisas do mundo poderiam ser reunidas sob um mesmo teto para qualquer pessoa com um mínimo de disposição para circular entre vitrines. Em 2026, no entanto, essa promessa se estilhaçou. O "grand magasin" já não é um destino único; tornou-se palco de uma bifurcação econômica profunda, em que os ultra-ricos se recolhem a enclaves privados enquanto a infraestrutura voltada à classe média definha.

Em Londres, a Selfridges sinalizou essa virada ao inaugurar um clube privado, movimento desenhado para isolar seus clientes de maior gasto da experiência comum de varejo. A aposta no modelo "VIC" (Very Important Client) sugere que o futuro da loja de departamentos não está no volume de vendas, mas na exclusividade cercada. Para as instituições tradicionais que um dia definiram o centro urbano, a estratégia deixou de ser receber o público — e passou a ser curar uma atmosfera impenetrável para uma elite global.

O panorama do restante do setor é consideravelmente mais sombrio. O recente pedido de falência da Saks Global e a eliminação de mais de 200 postos de trabalho na Printemps evidenciam um colapso sistêmico do modelo tradicional. Até a BHV, presença histórica da paisagem parisiense, segue atolada numa persistente "crise de nervos". Enquanto essas gigantes lutam contra dívidas e mudanças nos hábitos de consumo, o grand magasin corre o risco de perder seu papel como peça vital do desenho urbano — e se converter ou numa fortaleza de luxo, ou numa relíquia oca de uma era de consumo que ficou para trás.

Com reportagem de L'ADN.

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