O roteiro é quase coreografado: despertar cedo, água gelada no rosto, uma dose de café funcional e treino em academias de nicho. O que parece busca individual por produtividade e bem-estar é, na verdade, sintoma de um mecanismo econômico mais profundo. O medo de ficar de fora, o célebre FOMO (Fear of Missing Out), deixou de ser apenas um fenômeno psicológico e se consolidou como um dos modelos de negócio mais eficazes da atualidade.
Essa padronização do cotidiano revela como o consumo migrou da posse de objetos para a adesão a rituais coletivos. Ao repetir os mesmos hábitos e frequentar os mesmos espaços validados pelo algoritmo, as pessoas buscam um senso de pertencimento que é, por definição, escasso e efêmero. As marcas, por sua vez, deixaram de vender produtos para vender "roteiros de vida" — nos quais a exclusão gera uma ansiedade que só se alivia pelo consumo imediato.
A homogeneização das referências — do café que se bebe à rotina de skincare antes de dormir — cria um ecossistema em que a identidade é moldada por uma curadoria externa. Num mundo de agendas lotadas e compromissos meticulosamente organizados no Google Calendar, a espontaneidade dá lugar à performance. O resultado é uma economia da ansiedade, que prospera enquanto existir o medo de que, ao se desviar do roteiro, estejamos perdendo algo essencial.
Com informações de Exame Inovação.
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