Na geografia árida do Oriente Médio, a água é há muito uma questão de segurança nacional — mas as escaladas recentes transformaram a infraestrutura de sobrevivência em alvo militar prioritário. No início de março, autoridades iranianas acusaram os Estados Unidos de um ataque a uma usina de dessalinização na ilha de Qeshm, situada na entrada estratégica do Estreito de Hormuz. Embora os EUA tenham negado envolvimento, a interrupção resultante teria cortado o abastecimento de água potável de quase 30 vilarejos, sinalizando uma mudança sombria no cenário tático da região.
A vulnerabilidade não se restringe ao Irã. Bahrein e Kuwait relataram danos em suas próprias instalações, direcionando acusações a Teerã. A retórica só se intensificou com o ex-presidente Donald Trump ameaçando destruir a capacidade de dessalinização do Irã caso o Estreito de Hormuz não seja reaberto — chegando a sugerir novos ataques contra usinas de energia e pontes. Para os países do Golfo, onde a dessalinização fornece a ampla maioria da água destinada ao consumo, à agricultura e à indústria, essas ameaças miram a própria base da vida civil.
Infraestrutura como arma em tempos de fragilidade ambiental
Essa instrumentalização da infraestrutura chega num momento de extrema fragilidade ambiental. Segundo Liz Saccoccia, do World Resources Institute, 83% do Oriente Médio enfrenta atualmente um nível "extremamente alto" de estresse hídrico. À medida que as temperaturas sobem e secas impulsionadas pelas mudanças climáticas tornam os aquíferos tradicionais insuficientes, a dependência precária da região em relação a tecnologias de capital intensivo se converteu numa profunda vulnerabilidade estratégica. No conflito atual, o objetivo já não é apenas territorial ou econômico — é o controle da torneira em si.
Com reportagem de MIT Tech Review Brasil.
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