Em sua primeira individual nos Estados Unidos, no MoMA PS1, a artista sul-coreana Ayoung Kim apresenta Delivery Dancer Codex, obra que interroga a natureza do eu dentro da lógica sem atrito da logística moderna. A prática de Kim sempre foi um exercício de ficção especulativa ancorado em dados concretos da história geopolítica. Ao entrelaçar análise de mídia e redes históricas de transporte, ela constrói um espaço narrativo em que a dependência obsessiva da era digital em relação à tecnologia espelha o mito antigo de Narciso — seduzido e enganado por um reflexo cada vez mais algorítmico.
Os projetos anteriores de Kim já revelavam essa fascinação pelo trânsito de informação e capital através de fronteiras. Em PH Express, ela mapeou a circulação de telegramas e as missões de patrulha de navios de guerra europeus no Leste Asiático no século 19. Depois, em Please Return to Busan Port, examinou a economia cultural das corridas de cavalos pelo prisma de reportagens da imprensa. Essas obras funcionam como alicerce para suas explorações mais recentes de infraestruturas alternativas, como uma ferrovia transcontinental fictícia ligando Busan à Eurásia, contornando fronteiras políticas contemporâneas por meio de uma continuidade histórica reimaginada.
Em Delivery Dancer Codex, esse interesse pelo trânsito se transforma numa investigação sobre a gig economy e a presença digital. A obra sugere que nosso estado tecnológico atual não se limita a facilitar o deslocamento — ele altera de modo fundamental a percepção de identidade. Enquanto os "dançarinos" de Kim percorrem as rotas otimizadas de um mundo movido por entregas, eles refletem uma sociedade presa entre a eficiência da rede e o isolamento da tela. Trata-se de um estudo sobre como nos apaixonamos por nossas próprias sombras digitais dentro dos sistemas projetados para nos manter em movimento.
Com reportagem de MUBI Notebook.
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