Em 1978, Sophie Calle voltou a Paris depois de sete anos viajando pelo mundo e iniciou um período de perambulação sem rumo que viria a definir sua carreira como artista conceitual. Durante uma dessas caminhadas, encontrou uma porta entreaberta no hotel abandonado ligado à antiga estação de trem Orsay. Lá dentro, deparou-se com um mundo congelado de poeira e documentos descartados — um espaço liminar que ela acabaria ocupando como invasora no quarto 501.
Enquanto vivia na estação em decomposição, Calle começou a desenvolver as metodologias de acaso e vigilância que se tornariam sua marca registrada. Passava os dias seguindo desconhecidos pela cidade e convidando conhecidos a dormir em sua cama enquanto os fotografava, tratando o hotel abandonado como um laboratório privado para investigar os limites entre o público e o privado. Colecionou objetos e fotografou a deterioração lenta da estação, sem imaginar que a estrutura seria transformada em um dos museus mais prestigiados do mundo.
Quase quarenta anos depois, num jantar, Calle revelou sua história secreta a Donatien Grau, diretor de programas contemporâneos do Musée d'Orsay. A revelação de que ela havia vivido ilegalmente dentro das mesmas paredes que hoje abrigam obras-primas de Monet e Van Gogh ilumina a natureza cíclica do espaço urbano. Seu "sonambulismo" inicial pelas ruínas do Orsay não foi um mero exercício boêmio, mas um ato fundador de reapropriação adaptativa, no qual a artista reivindicou a arquitetura descartada da cidade como lugar de produção intelectual.
Com reportagem de Aperture.
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