O cenário geopolítico atual é definido por uma divergência filosófica profunda. De um lado, ressurge o realismo do poder bruto — uma visão de mundo que entende a autoridade política como algo fundamentalmente derivado da força militar e da capacidade tecnológica. Da invasão da Ucrânia à escalada do confronto tecnológico entre Estados Unidos e China, o sentimento predominante entre as grandes potências é de que normas internacionais são secundárias diante das "leis de ferro" da força. Nesse enquadramento, o soft power não é visto como ferramenta, mas como ilusão de quem não reconhece que a força é a única moeda real da ordem global.

Essa mudança deu origem a uma espécie de "Regra de Ouro invertida": uma doutrina em que nações se sentem compelidas a fazer aos outros aquilo que suspeitam que os outros fariam a elas. Essa lógica é mais visível na corrida pela supremacia em inteligência artificial. Líderes dos setores público e privado — incluindo figuras como Alex Karp, da Palantir — argumentam cada vez mais que a superioridade tecnológica não é apenas uma meta econômica, mas uma necessidade existencial. Num mundo governado por competição de soma zero, o acúmulo de capacidades militares e de IA se torna um ciclo simbiótico, alimentado pelo medo de ficar para trás.

Contra esse pano de fundo, uma segunda alternativa, mais frágil, persiste: o multilateralismo de potências médias. Essa perspectiva reconhece que o poder bruto é uma realidade, mas sustenta que um mundo onde "a força faz o direito" é inerentemente instável para a maioria da população global. Para nações que não têm status de superpotência, construir uma ordem baseada em regras — por mais imperfeita que seja — continua sendo a única defesa viável contra os caprichos das hegemonias. Trata-se de uma busca por estabilidade por meio da cooperação, mesmo quando os maiores protagonistas do mundo se voltam para um futuro definido pela força bruta.

Com reportagem de Noema Magazine.

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