Na sequência de abertura de Amsterdamned II, de Dick Maas, um casal americano endinheirado navega pelos canais da cidade à meia-noite. O cenário é supostamente romântico — champanhe, cordões de luz, a arquitetura histórica da capital holandesa —, mas o clima é azedo. Eles reclamam do cheiro da água e do aperto antiquado das casas, com saudade do luxo asséptico de Dubai. O desdém é interrompido quando o barqueiro desaparece e uma faca perfura o casco por baixo. Em instantes, a mulher é arrastada para a água escura por uma figura em neoprene, seus gritos abafados pelo ronco de uma motocicleta que passa.
A sequência chega quase quatro décadas depois do original de 1988, filme que permanece como marco singular na história do cinema holandês. O primeiro Amsterdamned era uma raridade: um blockbuster de ação produzido em casa que transformava o sistema labiríntico de canais da cidade em palco para um slasher-thriller. Foi um fenômeno que provou que os Países Baixos eram capazes de produzir cinema de gênero com adrenalina alta, ao mesmo tempo local em sua identidade e viável comercialmente em escala global.
O filme de 2025, porém, sugere certo desenvolvimento interrompido dentro da indústria. Embora a sequência tenha alcançado sucesso comercial após sua estreia em dezembro passado, foi recebida com indiferença crítica — um "mergulho" que não produziu ondas. Ao retornar ao mesmo assassino de roupa de mergulho e às mesmas profundezas turvas, Maas evidencia uma tensão no cinema holandês: a dificuldade de evoluir para além das sombras de triunfos passados. Os canais continuam escuros como sempre, mas a novidade do terror que espreita sob suas águas já começou a se depositar no lodo.
Com reportagem de MUBI Notebook.
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