A recente onda de resgates que atinge grandes gestoras de crédito nos Estados Unidos reflete menos a qualidade dos ativos do que uma falha fundamental na arquitetura dos fundos. No centro da questão está uma distorção de preços: o valor patrimonial líquido (NAV) pelo qual os fundos marcam suas carteiras costuma ficar acima do preço pelo qual suas cotas são negociadas no mercado secundário. Essa discrepância criou um incentivo perverso para que investidores resgatem diretamente do fundo em vez de vender no mercado aberto — realizando, na prática, um ganho por meio da própria saída.
Alexandre Muller, sócio da gestora brasileira JGP, observa que essa oportunidade de "arbitragem" é o motor do êxodo atual. A tensão estrutural é sentida com mais intensidade em casas como o Morgan Stanley, que recentemente passou a limitar resgates após um pico nos pedidos de saque. Trata-se de uma armadilha clássica de liquidez reescrita para a era do crédito privado, em que a promessa de estabilidade por meio de avaliações pouco frequentes esbarra na realidade fria da volatilidade de mercado.
A tendência tem atraído críticas cada vez mais duras de figuras seniores do setor. Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, traçou paralelos entre os excessos atuais no crédito privado e as vulnerabilidades sistêmicas que antecederam a crise financeira de 2008. Howard Marks, da Oaktree Capital, por sua vez, apontou os fatores psicológicos por trás do boom — inveja e o medo de ficar de fora — como indicadores de que o setor pode estar sobrecarregado. À medida que esses veículos enfrentam seu primeiro teste significativo de liquidez, o foco se desloca dos rendimentos prometidos para os mecanismos que os sustentam.
Com reportagem de InfoMoney.
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