Crise dupla nos mares

O transporte marítimo global navega, neste momento, uma crise dupla de segurança e sustentabilidade. Há semanas, o setor lida com o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz e do Mar Vermelho — artérias por onde passa um quinto da oferta mundial de petróleo. Apreensões iranianas e ameaças dos rebeldes Houthi forçaram centenas de embarcações a desvios onerosos pelo Cabo da Boa Esperança, acrescentando semanas aos tempos de trânsito e empurrando o preço do petróleo bruto a patamares que viraram de cabeça para baixo a economia tradicional do setor.

Janela inesperada para a energia verde

Essa volatilidade abriu uma brecha inesperada para a energia limpa. Com a disparada dos custos do combustível marítimo convencional, certos biocombustíveis se tornaram, pela primeira vez, mais baratos que seus equivalentes fósseis. É nesse cenário de instabilidade que a Organização Marítima Internacional (IMO) se reúne nesta semana. A agência da ONU, que representa 176 nações, tenta finalizar um marco regulatório de emissões líquidas zero que imporia uma taxa obrigatória sobre cada tonelada de gases de efeito estufa produzida pelo setor.

Consenso ainda distante

O transporte marítimo continua sendo uma das indústrias mais difíceis de descarbonizar, respondendo por cerca de 3% das emissões globais. A taxa de carbono proposta representa uma mudança sísmica na forma como o comércio internacional é regulado, com potencial para gerar bilhões de dólares destinados a financiar a transição para propulsão mais limpa. Ainda assim, o consenso necessário para uma política dessa magnitude permanece esquivo, preso entre as pressões imediatas de uma cadeia de suprimentos global fraturada e a necessidade de longo prazo de um futuro pós-carbono.

Com reportagem de Grist.

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