Em A Trilha Azul, de Gabriel Mascaro, o interesse do Estado pelos idosos é apresentado como "dever patriótico" — embora a realidade seja bem mais clínica. O filme constrói um Brasil distópico no qual cidadãos, ao atingir determinada idade, recebem louros banhados a ouro e acabam despachados para colônias de idosos. É um mundo em que o "vagão das rugas" funciona como ferramenta de higiene social, varrendo os mais velhos das ruas para aliviar a juventude produtiva.

A narrativa gira em torno de Tereza, 77 anos, vivida com uma resignação combativa por Denise Weinberg. Seu mundo desmorona quando o governo reduz abruptamente a idade de remoção compulsória de 80 para 75 anos, arrancando-lhe a vida profissional e colocando-a sob tutela integral da filha. Em vez de se submeter a um apagamento patrocinado pelo Estado, Tereza foge — e o que era uma história de aposentadoria forçada se converte numa viagem surreal de resistência.

Mascaro e o diretor de fotografia Guillermo Garza adotam um aspecto de tela quadrado que intensifica a sensação de claustrofobia, mas as paisagens — rios entupidos de pneus, cursos d'água sinuosos — transmitem amplitude e selvageria. Essa tensão visual espelha o próprio embate de Tereza: a tentativa de romper as fronteiras rígidas de uma sociedade que enxerga sua existência como um problema logístico a ser resolvido.

Com reportagem de Little White Lies.

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