A provocação central da física quântica não é simplesmente que o mundo é pequeno, mas que ele é fundamentalmente relacional. Em vez de revelar um conjunto de verdades estáticas e "objetivas", os pioneiros do campo perceberam que os fenômenos não existem de forma isolada. Eles se definem por suas interações com o observador e com o ambiente. Essa virada sugere que a realidade é um fluxo constante de circunstâncias contingentes, no qual a participação humana não é mera observação, mas uma coconstituição do próprio objeto.
Em seu novo livro, On the Equality of All Things: Physics and Philosophy, o físico teórico Carlo Rovelli argumenta que essas ideias revolucionárias não surgiram no vácuo. Rovelli sustenta que Niels Bohr, um titã da ciência quântica, foi profundamente influenciado por seu conterrâneo, o filósofo Søren Kierkegaard. Criado na Dinamarca, Bohr estava imerso no existencialismo de Kierkegaard — um arcabouço que priorizava a perspectiva individual e os limites inerentes do conhecimento humano em detrimento do racionalismo rígido e totalizante dos sistemas hegelianos dominantes no século 19.
Esse DNA filosófico é visível na rejeição quântica da "objetividade completa". Como a percepção humana é inerentemente perspectivista, existem necessariamente pontos cegos que impedem a construção de um sistema abrangente e fechado. Ao se afastar da ideia de um universo predeterminado, Bohr e seus contemporâneos abriram caminho para uma realidade definida pela relacionalidade e por possibilidades emergentes. Como observa Rovelli com ironia, físicos raramente inventam uma nova forma de ver o mundo sem antes encontrar a permissão intelectual para fazê-lo nas páginas da filosofia.
Com reportagem de Noema Magazine.
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