O presidente francês Emmanuel Macron recebeu o primeiro-ministro libanês Nawaf Salam no Palácio do Eliseu nesta terça-feira e fez um apelo direto pelo reforço do cessar-fogo em vigor entre Líbano e Israel. Macron descreveu o momento como uma janela diplomática decisiva e alertou que a região não pode se dar ao luxo de um retorno às hostilidades abertas. "Precisamos dar tempo às negociações e não permitir que a guerra recomece", afirmou o presidente francês, definindo o tom para as conversas de alto nível esperadas em Washington ainda esta semana.
O encontro aconteceu poucos dias depois de um incidente no fim de semana em que soldados da UNIFIL foram alvejados, resultando na morte de um militar francês — um desdobramento que acrescentou urgência e peso político ao engajamento de Paris. O primeiro-ministro Salam classificou a busca por negociações diretas não como sinal de fraqueza, mas como um "ato responsável", ao mesmo tempo em que insistiu que a estabilidade duradoura é impossível sem a restauração da integridade territorial do Líbano.
Dois pilares, um impasse
O arcabouço diplomático de Macron se apoia em duas exigências que, historicamente, têm se mostrado difíceis de conciliar: a retirada completa das forças israelenses do território libanês e o desarmamento do Hezbollah. Cada pilar carrega seu próprio conjunto de obstáculos arraigados.
Israel há muito condiciona qualquer retirada do sul do Líbano a garantias de segurança críveis — especificamente, a certeza de que a zona fronteiriça não voltará a servir como base para ataques com foguetes. O Hezbollah, por sua vez, resiste ao desarmamento há décadas, enquadrando seu braço armado como um instrumento de dissuasão necessário, e não como uma milícia sujeita ao controle estatal. A Resolução 1701 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, adotada após a guerra de 2006 entre Israel e Hezbollah, exigia precisamente essa combinação — retirada israelense para o sul da Linha Azul e desarmamento de todos os grupos armados no Líbano —, mas sua implementação permanece incompleta há quase duas décadas.
O papel da França nessa equação não é acidental. Paris mantém presença significativa na UNIFIL desde a expansão da força em 2006 e historicamente se posiciona como mediadora com credibilidade em ambos os lados do Mediterrâneo. A morte de um soldado francês da força de paz intensifica esse envolvimento, transformando o que poderia ser um engajamento diplomático de rotina em uma questão de consequência política doméstica para Macron.
Washington como campo de prova
O deslocamento das negociações para Washington introduz uma dinâmica diferente. Os Estados Unidos tradicionalmente atuam como principal mediador externo em disputas entre Israel e países árabes, e qualquer arcabouço que emerja dessas conversas provavelmente refletirá prioridades estratégicas americanas ao lado das preocupações francesas e libanesas. A questão é se a postura atual de Washington permite o tipo de mediação sustentada e minuciosa que um cessar-fogo duradouro exige.
O Líbano chega a essas discussões em posição de fragilidade estrutural. O sistema político do país está sob pressão severa há anos, com crise econômica, paralisia institucional e as consequências persistentes da explosão no porto de Beirute em 2020 corroendo a capacidade do Estado. A possibilidade de Salam negociar com credibilidade depende, em parte, de os atores externos enxergarem o governo libanês como capaz de fazer cumprir qualquer acordo que assine — em particular um que envolva constranger o Hezbollah, organização que opera simultaneamente como partido político e força armada com raízes profundas na sociedade libanesa.
O cálculo de Israel não é menos complexo. Pressões políticas domésticas, preferências do establishment de segurança e a postura regional mais ampla em relação ao Irã são variáveis que determinam até onde qualquer governo israelense está disposto a ir ao trocar retirada territorial por garantias diplomáticas.
O que permanece incerto é se o atual impulso diplomático representa um ponto de inflexão genuíno ou apenas uma pausa num ciclo de escalada. O cessar-fogo se mantém, mas as condições subjacentes que produziram o conflito — soberania contestada, atores armados não estatais e doutrinas de segurança concorrentes — seguem sem solução. As conversas em Washington vão testar se a arquitetura internacional em torno desse conflito é capaz de produzir algo mais duradouro do que as tréguas frágeis que a precederam.
Com reportagem de InfoMoney.
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