Um artigo de trabalho publicado pelo National Bureau of Economic Research (NBER) coloca um número concreto sobre algo tratado há tempos como externalidade: os danos à saúde pública e ao meio ambiente provocados pelo consumo de eletricidade dos data centers nos Estados Unidos. O estudo, de autoria do economista Nicholas Muller, da Carnegie Mellon, analisou 2.800 instalações e concluiu que a demanda energética da infraestrutura de IA gera custos estimados em US$ 25 bilhões por ano para a economia — custos arcados não pelas empresas que operam os servidores, mas pelas comunidades que vivem próximas às usinas que os alimentam.
O artigo chega num momento em que o setor de data centers se expande em ritmo sem precedentes. Operadores de hiperescala — as grandes empresas de nuvem e IA que dominam o segmento — anunciaram ondas sucessivas de novas construções, impulsionadas pelo apetite computacional de grandes modelos de linguagem e cargas de trabalho de IA generativa. Essa expansão se converte diretamente em demanda por eletricidade, que por sua vez se converte em emissões, a depender da matriz de combustíveis da rede elétrica local.
A mecânica de uma externalidade
A metodologia central do artigo do NBER se apoia em um arcabouço consolidado da economia ambiental: o custo social do carbono e a monetização dos impactos à saúde causados pela poluição do ar. Quando um data center consome energia de uma rede que depende em parte de gás natural ou carvão, o processo de geração produz poluentes — material particulado fino, dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio — associados a doenças respiratórias, problemas cardiovasculares e mortalidade prematura. A análise de Muller cruza a localização das instalações com os perfis de combustível das redes que as atendem e então aplica funções de dano para estimar os custos a jusante.
A cifra de US$ 25 bilhões abrange tanto danos relacionados ao clima (via custo social do carbono) quanto custos diretos de saúde, incluindo o aumento do risco de mortalidade para populações que vivem nas proximidades de usinas movidas a combustíveis fósseis. A distinção importa: os custos climáticos são difusos e globais, enquanto os custos de saúde são concentrados e locais. Um data center construído em uma região alimentada majoritariamente por renováveis impõe uma fração do dano de outro conectado a uma rede dependente de carvão. Nesse modelo, a geografia é destino.
Não se trata de um exercício contábil abstrato. O custo social do carbono já está incorporado à análise regulatória federal dos Estados Unidos, e avaliações de impacto à saúde são ferramentas padrão em política ambiental. O que o artigo faz é aplicar essas ferramentas especificamente a um setor que, até recentemente, escapava do escrutínio granular de sua pegada ambiental. O setor de tecnologia historicamente enfatizou sua própria eficiência operacional — índices de efetividade no uso de energia, contratos de aquisição de energia renovável — enquanto as emissões a montante, provenientes da eletricidade da rede, receberam menos atenção.
Quem paga a conta
As implicações políticas e regulatórias são significativas. Data centers costumam ser bem recebidos por governos locais pela receita tributária e pelos empregos que geram, mas os custos de saúde identificados no estudo recaem sobre essas mesmas comunidades. Essa assimetria — ganhos privados para os operadores, custos socializados para os moradores — é a definição clássica de externalidade negativa e tende a atrair atenção regulatória uma vez que é quantificada.
Diversas jurisdições já começaram a resistir à expansão de data centers, citando pressão sobre redes elétricas locais, consumo de água para refrigeração e poluição sonora. O artigo do NBER acrescenta uma nova dimensão a essa resistência ao vincular um valor em dólares a desfechos de saúde. Se essa cifra altera a conversa sobre políticas públicas depende de como reguladores estaduais e federais pesam o desenvolvimento econômico contra custos ambientais e de saúde pública — uma tensão que não tem solução simples.
Vale também observar o que o estudo não resolve. A estimativa de danos é sensível a premissas sobre a composição da rede elétrica, e as redes estão mudando. Concessionárias em todo o país estão adicionando capacidade renovável, e alguns operadores de hiperescala estão assinando contratos de compra de energia limpa de longo prazo. Se a descarbonização da rede avançar mais rápido do que a demanda dos data centers, os custos de saúde podem diminuir. Se a demanda ultrapassar a transição energética — cenário que muitos operadores de rede consideram plausível —, os custos podem subir.
A cifra de US$ 25 bilhões, portanto, não é um veredito fixo, mas um retrato de um sistema em movimento. As forças que puxam em direções opostas — a aceleração da demanda por IA de um lado, a descarbonização da rede do outro — vão determinar se o custo oculto das emissões de data centers cresce ou diminui. A questão é qual força avança mais rápido — e quem paga a conta nesse meio-tempo.
Com reportagem de Fortune.
Source · Fortune



