Neutrinos são os moradores mais esquivos do universo. Quase sem massa e desprovidos de carga elétrica ou de "cor", atravessam planetas e estrelas como se a matéria sólida fosse mera sugestão. Durante décadas, porém, os físicos foram assombrados pela possibilidade de uma quarta variedade — o neutrino "estéril" —, uma partícula ainda mais fantasmagórica, que interagiria com o mundo apenas pela gravidade.
A caçada a essa partícula nasceu de uma série de anomalias persistentes. Nos anos 1990 e início dos anos 2000, experimentos como o Liquid Scintillator Neutrino Detector (LSND) e o MiniBooNE registraram mais neutrinos de sabor eletrônico do que o Modelo Padrão da física conseguia explicar. Para dar conta desse excedente, cientistas formularam a hipótese de um ator oculto: um neutrino estéril capaz de oscilar para os sabores conhecidos, preenchendo a lacuna entre teoria e observação.
Essa hipótese agora enfrenta seu acerto de contas definitivo. Resultados recentes do experimento MicroBooNE, no Fermilab, não encontraram evidências do neutrino estéril, indicando que as anomalias anteriores eram provavelmente fruto de "ruído" experimental mais prosaico, como fótons identificados de forma equivocada. Embora o neutrino estéril oferecesse uma solução elegante para diversos enigmas cosmológicos, os dados apontam cada vez mais que ele não existe na forma que os físicos um dia imaginaram.
O golpe final e o que resta
O "toque de finados" para o neutrino estéril representa um momento agridoce para a física de partículas. Se por um lado estreita a busca por nova física, por outro reafirma a resiliência teimosa do Modelo Padrão. Os fantasmas que os pesquisadores pensavam ter visto na maquinaria parecem estar se dissipando, deixando para trás um universo não menos misterioso, mas talvez um pouco mais ordeiro do que se esperava.
Com reportagem de Quanta Magazine.
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