Enquanto boa parte da Europa redescobre o trem noturno como alternativa de baixo carbono à aviação de curta distância, os corredores ferroviários do norte da Suécia vivem uma contração silenciosa. Em artigo de opinião publicado no Dagens Nyheter, o defensor regional Klaus Wiegel argumenta que a estatal ferroviária sueca (SJ) e a Administração de Transportes (Trafikverket) estão, na prática, desmontando o serviço de trens noturnos para Norrbotten, o condado mais ao norte do país. A crítica chega num momento incômodo: a Suécia, nação que deu ao mundo o flygskam — o conceito de vergonha de voar —, parece estar empurrando seus próprios cidadãos de volta ao aeroporto.
A queixa específica gira em torno da redução de serviço nas rotas noturnas que ligam Estocolmo ao extremo norte. Num momento em que a política climática europeia favorece amplamente a expansão ferroviária, a trajetória no norte sueco aponta na direção oposta. Onde defensores do transporte público argumentam que a capacidade deveria crescer, a oferta está encolhendo.
Um abismo estrutural entre discurso e infraestrutura
As ambições climáticas da Suécia são amplamente documentadas. O país se comprometeu a alcançar emissões líquidas zero de gases de efeito estufa, e o setor de transportes — responsável por uma fatia significativa das emissões domésticas — está no centro dessa agenda. A ferrovia, com sua pegada de carbono comparativamente baixa por passageiro-quilômetro, é amplamente considerada a espinha dorsal de qualquer estratégia séria de descarbonização para viagens de média e longa distância.
Mas a realidade da infraestrutura no norte conta outra história. Norrbotten se estende por uma área aproximadamente do tamanho da Áustria, mas abriga menos de 250 mil habitantes. A baixa densidade populacional sempre tornou a economia de transporte da região um desafio. Manter e modernizar linhas férreas em territórios vastos e pouco habitados é caro, e a lógica comercial que rege as operações da SJ tende a privilegiar rotas com maior volume de passageiros. O resultado é um padrão familiar em regiões periféricas de toda a Europa: os lugares mais dependentes do transporte público costumam ser os primeiros a vê-lo se deteriorar.
A Trafikverket, agência estatal responsável pela infraestrutura ferroviária, enfrenta suas próprias limitações. A malha ferroviária sueca tem sido alvo de críticas persistentes por atrasos na manutenção e gargalos de capacidade, especialmente nos trechos de via única que predominam nas linhas do norte. Atrasos, cancelamentos e tempos de viagem longos agravam o problema, tornando o trem progressivamente menos competitivo frente à aviação justamente nas rotas em que deveria ser a opção padrão.
O paradoxo do flygskam
A dimensão cultural torna o caso sueco singular. O movimento flygskam, que surgiu no final dos anos 2010 e por um breve período reconfigurou hábitos de viagem na Escandinávia, se sustentava na existência de alternativas ferroviárias viáveis. O contrato social implícito era direto: escolha o trem, aceite a viagem mais longa, reduza sua pegada de carbono. Esse contrato só vale enquanto o trem efetivamente circular.
Quando os serviços de trens noturnos são cortados ou degradados, as opções práticas para chegar a Norrbotten se estreitam drasticamente. A distância rodoviária a partir de Estocolmo ultrapassa 1.000 quilômetros. Linhas de ônibus, onde existem, são lentas. A aviação deixa de ser luxo e passa a ser necessidade — e, com ela, vêm as emissões que o flygskam pretendia desencorajar.
A tensão não é exclusiva da Suécia. Em toda a Europa, governos enfrentam o desafio de conciliar compromissos climáticos com a realidade fiscal de manter serviço ferroviário em regiões de baixa densidade. A França travou debates semelhantes sobre seus trains de nuit; Itália e Espanha investiram pesadamente em corredores de alta velocidade enquanto linhas periféricas definham. O que distingue o caso sueco é a nitidez da contradição: um país que construiu parte de sua identidade internacional em torno do transporte sustentável agora luta para manter a conectividade ferroviária básica com seu próprio território setentrional.
As forças em jogo — lógica comercial que favorece corredores densos, orçamentos de infraestrutura esticados ao limite, metas climáticas que exigem mudança modal — puxam em direções opostas. Se a Suécia resolverá essa tensão com investimento renovado na ferrovia do norte ou aceitará silenciosamente a aviação como padrão para suas regiões árticas, a resposta dirá algo mais amplo sobre a seriedade com que as nações europeias tratam a descarbonização quando ela colide com geografia difícil e margens apertadas.
Com reportagem do Dagens Nyheter.
Source · Dagens Nyheter



