Veneza, outrora potência naval soberana que dominava o Mediterrâneo, hoje se vê numa posição defensiva contra as mesmas águas que a construíram. A relação da cidade com o Adriático deixou de ser de vantagem estratégica para se tornar uma ameaça existencial. Em 2019, um episódio de acqua alta submergiu 80% da cidade sob 187 centímetros de água — um eco perturbador da inundação recorde de 194 centímetros registrada em 1966. Para enfrentar o problema, a Itália implantou o MOSE — Modulo Sperimentale Elettromeccanico —, um sistema de 78 barreiras móveis instaladas nas três bocas que conectam a laguna veneziana ao mar aberto. As barreiras repousam no leito marinho quando inativas e se erguem por meio de ar comprimido quando as marés ultrapassam determinado limiar, vedando a laguna durante eventos de maré alta.
Embora o MOSE tenha sido celebrado como solução definitiva, sua viabilidade de longo prazo é cada vez mais questionada. O projeto de engenharia, que custou mais de cinco bilhões de euros e levou décadas para ser concluído — as obras começaram em 2003 e a operação plena só foi declarada em 2020 —, foi dimensionado para uma realidade climática que está mudando rapidamente. Dados recentes revelam uma aceleração preocupante nos eventos extremos: das 28 inundações "extremas" registradas nos últimos 150 anos, definidas como eventos que cobrem 60% da superfície da cidade, um número desproporcional ocorreu nas últimas décadas. Os parâmetros de projeto do sistema pressupunham um teto para a elevação do nível do mar ao longo de sua vida útil projetada de um século. Esse teto agora parece otimista.
O paradoxo de barreiras permanentes numa laguna viva
A tensão central que Veneza enfrenta não é apenas de engenharia — é ecológica. O MOSE foi concebido para acionamentos ocasionais: um punhado de fechamentos por ano, durante as marés mais severas. Mas à medida que o nível do mar de base sobe, a frequência de ativação aumenta. Cada fechamento isola a laguna do Adriático, interrompendo a troca de marés que dispersa poluentes, repõe oxigênio e sustenta o equilíbrio delicado da vida marinha no interior da laguna. Um sistema de barreiras ativado poucas vezes ao ano é uma defesa contra enchentes. Um sistema ativado dezenas ou centenas de vezes ao ano se aproxima de uma barragem permanente — com consequências que o projeto original jamais pretendeu absorver.
Esse é um padrão recorrente em grandes infraestruturas de adaptação climática. A Thames Barrier, em Londres, operacional desde 1982, registrou aumento constante na frequência de fechamentos ao longo das décadas. As Delta Works holandesas, talvez o sistema de defesa contra inundações mais celebrado da história, passaram por revisões e ampliações contínuas desde sua construção original em meados do século XX. A lição desses precedentes é consistente: infraestrutura estática construída contra uma ameaça dinâmica exige reinvestimento perpétuo e, eventualmente, uma reformulação de fundo. A situação de Veneza é possivelmente mais aguda porque a laguna não é apenas um corpo d'água a ser gerenciado — é a fundação da cidade, sua rede de transporte e sua identidade ecológica.
Em busca de um plano B num clima incerto
O reconhecimento de que o MOSE pode não ser suficiente no longo prazo abriu espaço para a discussão de estratégias complementares. Entre as abordagens que emergem nesses debates estão a elevação física das áreas mais vulneráveis da cidade, a injeção de água ou outros materiais sob o leito da laguna para erguer o terreno e a revisão do planejamento urbano para acomodar inundações periódicas em vez de resistir a elas por completo. Cada abordagem carrega seus próprios dilemas — custo, viabilidade, impacto sobre uma cidade que é, ao mesmo tempo, uma comunidade viva, Patrimônio Mundial da UNESCO e um dos destinos turísticos mais visitados do planeta.
A questão mais ampla que Veneza levanta vai muito além da Itália. Cidades costeiras do mundo inteiro enfrentam dilemas análogos diante da elevação do nível do mar e da intensificação de ressacas e tempestades. O impulso de construir uma defesa única e monumental — um muro, uma barreira, um dique — é poderoso e politicamente legível. Mas a experiência veneziana sugere que projetos dessa natureza, por mais sofisticados tecnicamente, operam dentro de premissas que o clima está invalidando de forma contínua. Os cinco bilhões de euros gastos no MOSE compraram tempo. Quanto tempo, e o que vem depois, continua sendo uma pergunta em aberto — que obriga a encarar a distância entre o ritmo da infraestrutura e o ritmo da mudança ambiental.
Com reportagem de Xataka.
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