Um conceito improvável com raízes históricas

No International Film Festival Rotterdam, o público recebeu Chronovisor como uma obra de ficção de alto conceito. Dirigido por Kevin Walker e Jack Auen, o filme acompanha Beatrice — interpretada por Anne-Laure Sellier, professora de ciência comportamental na vida real — enquanto ela mergulha num labiríntico projeto de pesquisa envolvendo uma invenção suprimida e um padre misterioso. O ponto de partida da trama, que soa como produto de uma sala de roteiristas especulativos, está ancorado num canto bizarro da história do século 20.

O dispositivo do padre Ernetti

O dispositivo que dá título ao filme teria sido criação do padre Pellegrino Ernetti, monge beneditino e físico que afirmava ter desenvolvido um método para captar "resíduos eletromagnéticos" de eventos passados. O Chronovisor de Ernetti não era uma máquina do tempo no sentido físico, mas um receptor que traduzia formas de onda históricas em meio visual — transformando o passado, na prática, numa transmissão televisiva tosca e cintilante. Walker e Auen tratam essa toca de coelho histórica não apenas como recurso de enredo, mas como investigação sobre o ato de leitura e a preservação da memória.

Entre thriller e ensaio arquivístico

Formalmente, o filme dissolve a fronteira entre thriller convencional e ensaio arquivístico. Utiliza documentos primários meticulosamente pesquisados, sobrepondo traduções em inglês diretamente a textos multilíngues, e incorpora registros perturbadores do funeral de Ernetti. À medida que a narrativa avança, a estrutura começa a se desfazer, deslocando-se de um estudo de obsessão centrado em personagem para uma peça de videoarte abstrata. Ao fazê-lo, Chronovisor espelha o próprio dispositivo que descreve: uma tentativa de reconstruir uma imagem coerente a partir das formas de onda fragmentadas do passado.

Com reportagem de MUBI Notebook.

Source · MUBI Notebook