No estúdio da Bocci em Vancouver, o ato de fabricar é tratado como uma performance da física. A coleção mais recente da marca canadense de design, batizada de 93, resulta de um encontro em alta temperatura entre dois materiais díspares: alumínio fundido é despejado diretamente dentro de recipientes de vidro soprado à mão. Conforme o metal esfria, deixa para trás um rastro metálico, semelhante a mármore, do seu próprio movimento — congelando efetivamente um processo industrial caótico numa forma estática e luminosa.

Projetada pelo cofundador da Bocci, Omer Arbel, a série 93 enfatiza aquilo que o processo torna inevitável: o momento irrepetível. Como o alumínio escoa e solidifica de maneira diferente a cada vez que entra no vidro, nenhuma peça é idêntica a outra. Quando iluminado por dentro, a luz captura as ondulações e texturas do metal, transformando um objeto funcional num estudo de contraste material e dinâmica de fluidos. A coleção foi concebida para ser modular, funcionando como pendentes individuais, instalações agrupadas ou arandelas para paredes e tetos. Cada esfera tem 292 milímetros de diâmetro e pode ser combinada com acabamentos em latão ou pintura eletrostática. Na versão de luminária de mesa, Arbel integrou um sistema de dimerização que permite alterar a intensidade da luz, mudando o peso visual do alumínio dentro de sua cápsula de vidro.

Processo como autoria

A Bocci ocupa há tempos uma posição singular no design contemporâneo de iluminação. Enquanto muitos estúdios partem de uma forma definida e fazem engenharia reversa até chegar à produção, a metodologia de Arbel tende a inverter a sequência: é o processo material que gera a forma. Coleções anteriores da Bocci já exploraram território semelhante — vidro soprado em moldes ou moldado ao redor de malha de cobre —, mas a série 93 leva o princípio adiante ao introduzir uma variável genuinamente imprevisível. O alumínio fundido não se comporta como o vidro. É mais denso, esfria mais rápido e resiste ao tipo de manipulação delicada que a sopragem de vidro permite. O resultado é uma colaboração não entre designer e artesão no sentido tradicional, mas entre um conjunto de condições físicas e as leis que as governam.

Essa abordagem insere a Bocci numa linhagem mais ampla de design orientado pelo processo, que remonta pelo menos aos experimentos de meados do século XX com materiais industriais — fibra de vidro, resina fundida, compensado curvado — nos quais o comportamento do material sob estresse ou calor se tornava o vocabulário estético. A diferença está na intenção. Onde designers anteriores frequentemente buscavam domesticar processos industriais em formas repetíveis, Arbel parece buscar o oposto: variação máxima dentro de um envelope controlado. A esfera de 292 milímetros é a restrição; tudo o que acontece dentro dela fica por conta do acaso.

As implicações filosóficas merecem registro. Numa era em que a fabricação digital e a modelagem paramétrica permitem especificar objetos com tolerâncias inferiores a um milímetro, abraçar deliberadamente a entropia soa como uma contraposição. E levanta uma pergunta sobre onde reside a autoria — no designer que define os parâmetros ou no evento físico que os preenche.

Modularidade e o mercado da singularidade

A estrutura comercial da coleção 93 reflete uma tensão que atravessa boa parte do design contemporâneo de alto padrão. De um lado, o sistema é modular: pendentes se agrupam, arandelas se fixam, luminárias de mesa têm dimerização. São as características que tornam um produto especificável por arquitetos e designers de interiores em projetos de hotelaria ou residenciais. De outro, a proposição de venda é a unicidade — cada peça, um artefato irrepetível de um evento termodinâmico. A modularidade promete sistema; a singularidade promete raridade. A Bocci pede ao mercado que sustente as duas ideias ao mesmo tempo.

Não se trata de uma proposição inédita no mundo do design. Ceramistas e sopradores de vidro há muito vendem a variação como atributo, não como defeito. Mas a iluminação opera sob pressões comerciais diferentes das que regem louças ou esculturas. Precisa se integrar a sistemas elétricos, atender a normas de segurança e, muitas vezes, manter coerência visual em instalações de grande escala. O grau em que a série 93 consegue escalar — de um pendente solitário sobre uma mesa de jantar a um agrupamento em escala de lustre no lobby de um hotel — sem perder sua reivindicação de individualidade provavelmente determinará sua trajetória no mercado de projetos corporativos e de hospitalidade.

O mecanismo de dimerização na versão de mesa acrescenta mais uma camada. Ao permitir que o usuário module a intensidade da luz, Arbel torna a presença visual do alumínio variável mesmo depois que o objeto está pronto. Com luz baixa, o metal recua; em brilho máximo, domina. O objeto não é estático na experiência, ainda que seja estático na forma. Se isso posiciona a série 93 como uma concorrente séria no mercado de iluminação arquitetônica ou como um objeto de design voltado a colecionadores — ou ambos — depende de forças que vão muito além do estúdio em Vancouver.

Com reportagem de Dezeen.

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