No Brasil, ascensão social raramente é entendida como ingresso numa vida cívica compartilhada. Cada vez mais, ela se define como um plano de fuga. Para a classe média em ascensão, "vencer na vida" não significa ter acesso a uma infraestrutura pública melhor — significa ganhar o suficiente para comprar a saída dela. O plano de saúde privado substitui o SUS, a escola particular substitui a rede pública, e o carro próprio substitui a rede de transporte em ruínas. Prosperidade se mede pela distância que se consegue colocar entre si e o Estado.
Essa retirada para soluções privadas reflete uma crise profunda de confiança. Segundo dados da OCDE de 2022, apenas 26% dos brasileiros declaram ter confiança alta ou moderada no governo federal, enquanto sete em cada dez acreditam que as instituições públicas não servem aos interesses da sociedade. O ceticismo vai além dos corredores do poder e chega às ruas. Uma pesquisa da Ipsos com 30 países revelou que menos de 15% dos brasileiros acreditam que a maioria das pessoas é confiável — um dos índices mais baixos do mundo.
A questão não é apenas moral; é funcional. Embora a corrupção seja uma queixa perene, a deterioração mais profunda está na percepção de ineficácia. Os brasileiros não apenas suspeitam que o governo é desonesto; estão convencidos de que ele é incapaz. Quando o Estado é visto como fundamentalmente quebrado, o contrato social se dissolve numa série de táticas individuais de sobrevivência, deixando pouco espaço para a confiança coletiva necessária à construção de uma sociedade moderna e coesa.
Com reportagem de Brasil Journal Tech.
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