O governo Trump pressiona pela abolição do estoque nuclear do Irã como parte de um esforço diplomático renovado, segundo reportagem do New York Times. A ofensiva ocorre em meio a negociações ainda assombradas pelas consequências da decisão do próprio Trump, em 2018, de se retirar do Plano de Ação Abrangente Conjunto (JCPOA, na sigla em inglês) — o acordo da era Obama que ele chamou de o pior já negociado.

A ironia central é difícil de exagerar. Quando os Estados Unidos abandonaram o JCPOA, o Irã respondeu com uma escalada de enriquecimento que ampliou drasticamente suas reservas de material nuclear. O estoque que Trump agora quer eliminar é substancialmente maior e mais avançado do que o que existia sob as restrições do acordo original — um problema que remonta diretamente à ruptura política que ele próprio iniciou. O terreno diplomático, em outras palavras, se deslocou contra Washington de maneiras que complicam exatamente o resultado que o governo persegue.

A retirada do JCPOA e suas consequências em cascata

O JCPOA de 2015, negociado sob o governo Obama e endossado pelo Conselho de Segurança da ONU, impunha limites rígidos ao enriquecimento de urânio pelo Irã, estabelecia um teto para seu estoque e submetia suas instalações a inspeções internacionais intrusivas. Em troca, o Irã obteve alívio de sanções econômicas paralisantes. O acordo nunca foi perfeito — críticos, incluindo Trump, argumentavam que ele não tratava do programa de mísseis balísticos iraniano nem de suas atividades regionais por meio de grupos aliados —, mas conseguiu congelar as capacidades nucleares do país em um patamar muito abaixo dos limiares necessários para uso bélico.

A retirada de Trump em maio de 2018, seguida pela reimposição de sanções abrangentes sob a campanha de "pressão máxima", removeu a estrutura de incentivos que mantinha o enriquecimento iraniano sob controle. Teerã esperou inicialmente mais de um ano antes de começar a violar os limites do JCPOA, aparentemente na expectativa de que os signatários europeus conseguissem preservar os benefícios econômicos do acordo. Quando esse esforço fracassou, o Irã escalou de forma metódica — aumentando a pureza do enriquecimento, expandindo operações de centrífugas e acumulando material físsil a um ritmo que alarmou especialistas em não proliferação. O resultado é um programa nuclear que, pela maioria das avaliações, é muito mais capaz e muito mais próximo da capacidade bélica do que era em 2018.

Uma mesa de negociação remodelada por escolhas do passado

A exigência atual do governo — de que o estoque iraniano seja abolido — representa uma posição de abertura maximalista em uma negociação que permanece profundamente assimétrica. O Irã detém uma alavanca física na forma de material enriquecido e infraestrutura de centrífugas que não existiam nessa escala antes do colapso do JCPOA. Reverter essa alavanca exige oferecer algo de valor equivalente, mas a credibilidade dos compromissos americanos foi enfraquecida pelo precedente da retirada unilateral de um acordo multilateral.

Esse déficit de credibilidade vai além de Teerã. Qualquer novo acordo precisaria assegurar ao Irã que um futuro governo americano não repetiria simplesmente o ciclo — abandonar um acordo, provocar escalada e depois exigir concessões ainda mais profundas. A experiência do JCPOA demonstrou que arcabouços diplomáticos, uma vez desmontados, não se reconstroem com facilidade. Aliados europeus, que investiram capital diplomático significativo no acordo original, expressaram cautela quanto à durabilidade de qualquer arranjo sucessor. China e Rússia, cosignatárias do JCPOA, ocupam hoje uma posição geopolítica diferente da que tinham em 2015, o que complica ainda mais o alinhamento multilateral.

O desafio de negociação do governo é moldado, portanto, não apenas pelas capacidades expandidas do Irã, mas pelo dano estrutural à arquitetura diplomática que um dia as conteve. Se Washington conseguirá assegurar um acordo mais abrangente que o JCPOA — que trate simultaneamente de enriquecimento, mísseis e comportamento regional — depende de sua capacidade de oferecer garantias que sua própria história recente solapa. A questão de como um presidente negocia a solução de um problema que sua própria política anterior ajudou a criar permanece, por ora, sem resposta clara.

Com reportagem de The New York Times — Science

Source · The New York Times — Science