A internet não quebrou por acidente. O termo enshittification, cunhado por Cory Doctorow em um post de janeiro de 2023 no Pluralistic e hoje amplamente difundido, descreve um ciclo de vida previsível: plataformas primeiro servem aos usuários para ganhar escala, depois servem às empresas para monetizar essa escala e, por fim, servem aos acionistas extraindo valor de ambos os lados. A sequência não é acidental. É, como Doctorow argumenta, estruturalmente inevitável sob as condições de incentivo que regem o capitalismo de plataformas. Esse enquadramento desloca a conversa da má conduta corporativa individual para o design sistêmico.

A mecânica da degradação das plataformas

O modelo de Doctorow se encaixa com precisão na história observável. O Facebook de 2008 era uma ferramenta que os usuários escolheram em vez do MySpace porque era genuinamente melhor — menos poluído, mais conectivo. Em 2023, seu feed havia se tornado uma superfície algoritmicamente otimizada para anunciantes, com o alcance orgânico de indivíduos e publishers estrangulado a quase zero. O Instagram seguiu o mesmo arco: lançado em 2010 como um aplicativo cronológico de compartilhamento de fotos, hoje exibe Reels de contas que o usuário nunca seguiu, priorizando métricas de engajamento em detrimento da intenção do usuário. Quando perguntado — como foi em entrevista à CBC com Ian Hanomansing — se o Instagram ainda "funciona" para os usuários, a resposta de Doctorow é precisa: funciona o suficiente para impedir que você saia, o que é diferente de funcionar para você.

A distinção importa porque identifica o mecanismo. Custos de troca — os grafos sociais, a contagem de seguidores, os anos de conteúdo publicado — funcionam como uma armadilha. As plataformas exploram esses custos deliberadamente, degradando o produto de forma incremental, apostando que os usuários não vão absorver o atrito da saída. Não se trata de uma dinâmica nova na economia industrial, mas as redes digitais a amplificam porque o aprisionamento é social, não meramente contratual. É possível cancelar uma assinatura de TV a cabo; não é possível migrar facilmente seus seguidores do Instagram para um concorrente.

A comparação com eras monopolistas anteriores é instrutiva. A alavancagem da Standard Oil era geográfica e física — controle de oleodutos. A alavancagem das plataformas é relacional e comportamental. Isso torna a regulação mais difícil com ferramentas antitruste do século 20, desenhadas para concentração de mercado tangível.

Regulação, Canadá e a complicação da IA

Doctorow, autor canadense radicado em Los Angeles e ligado à Electronic Frontier Foundation, aponta na entrevista o Canadá como potencial laboratório de experimentação regulatória — um tema recorrente em seus textos públicos. O mercado menor e o sistema parlamentarista do país, segundo o argumento, conferem mais agilidade para impor mandatos de interoperabilidade ou requisitos de portabilidade de dados que o Congresso americano repetidamente não conseguiu aprovar. O Digital Markets Act da União Europeia, em vigor desde março de 2024, é o experimento mais concreto em andamento: exige que "gatekeepers" designados permitam interoperabilidade com terceiros, atacando diretamente a armadilha dos custos de troca que Doctorow descreve.

A dimensão da IA complica a tese da enshittification de maneiras que os sete minutos da entrevista só conseguem tangenciar. Ferramentas de IA generativa estão atualmente na primeira fase do ciclo de Doctorow — agressivamente subsidiadas, genuinamente úteis, queimando capital de investidores para adquirir usuários. A pergunta que o modelo levanta não é se a IA vai passar pela enshittification, mas quando e com que velocidade. Os fossos de dados de treinamento que empresas como OpenAI e Google construíram sugerem que os mecanismos de aprisionamento podem chegar mais cedo e ser mais profundos do que na era das redes sociais, porque o custo de troca não é apenas o grafo social — é o conhecimento institucional incorporado em modelos empresariais ajustados sob medida.

O argumento final de Doctorow — "a culpa não é sua" — é retoricamente importante. Ele redireciona a culpa individual (você é viciado no celular) para a crítica estrutural (o celular foi projetado para viciar você). Esse movimento tem consequências políticas. Enquadrar o dano das plataformas como uma escolha de design, e não como falha do usuário, é precondição para a intervenção regulatória. O que permanece sem resposta é se as ferramentas regulatórias em construção — em Bruxelas, Ottawa ou Sacramento — conseguem se mover mais rápido do que o próximo ciclo de plataformas já em curso.

Source · The Frontier | Society