A primeira vez que você checa o e-mail de trabalho no banheiro, parece uma pequena vitória — uma otimização discreta de um dia abarrotado. Mas essa "pequena vitória" esconde uma transformação profunda na geografia das nossas vidas. Para a "geração-dobradiça" — aqueles que tiveram uma infância offline e uma adolescência atada à web —, a internet deixou de ser uma janela pela qual se espiava o mundo e se tornou uma atmosfera que simplesmente habitamos.

Na era da conexão discada, a internet exigia um ritual. Era um ponto fixo na casa, quase sempre uma única mesa em um cômodo específico. "Entrar na internet" era um ato deliberado, que envolvia negociar com os outros membros da família e ouvir o hino nervoso do modem. Como o portal era estacionário, o resto da casa permanecia um santuário. A internet era um destino que se visitava, como subir ao sótão ou ir ao jardim.

A mudança fundamental do início dos anos 2000 não foi apenas o aumento no número de usuários — foi a evaporação do esforço necessário para se conectar. À medida que a internet se tornou pervasiva, ela deixou de ser um lugar e passou a ser um ambiente. Nos seguiu até os cantos mais íntimos da vida doméstica, dissolvendo as fronteiras entre o discurso público e a solidão pessoal. Não vamos mais até a internet; vivemos dentro dela.

Com reportagem de Noema Magazine.

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