Em seu poema "Why I Write Poetry", a falecida Julia Vinograd oferece uma avaliação crua da condição humana, posicionando o ato de escrever como proteção necessária contra a indiferença divina. Embora o mundo natural possua uma beleza aterradora, Vinograd argumenta que ele permanece insuficiente para o espírito humano, que ela descreve como "crucificado nos ponteiros de um relógio". Para Vinograd, a poesia é menos um ato de devoção do que uma recusa em aceitar os "erros clínicos" embutidos na estrutura biológica.

A página em branco funciona como canteiro de obras de uma realidade que nunca nos foi concedida — uma "lista de compras da eternidade" onde a doença está ausente e a dança da existência não cessa. Vinograd reconhece as limitações de seu meio; palavras não curam uma ferida aberta nem se transformam em carne. Ainda assim, ela insiste no dever do poeta de falar por um mundo que precisa de mais tempo para cometer seus próprios "erros esplêndidos", em vez daqueles impostos pela mortalidade.

Em última instância, o trabalho do poeta é oferecer uma "corda de palavras" para aqueles que derivam nas correntes do tempo. É um chamado a tratar cada dia com o escrutínio tátil de um comprador no mercado que aperta o melão para testar a maturação. Num mundo em que não podemos confiar no divino para preservar o que amamos, o poema se torna a única estrutura capaz de mapear as constelações que encontramos no rosto de quem se ama.

Com reportagem de 3 Quarks Daily.

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