Para a cineasta sueca Ragnhild Ekner, o estádio nunca foi apenas um local de prática esportiva — era um santuário. Em seu documentário mais recente, Ultras, Ekner explora a subcultura hiperorganizada e intensamente leal dos torcedores mais devotos do futebol. O projeto é profundamente pessoal, nascido do impacto do suicídio de um amigo próximo — acontecimento já abordado em seu trabalho anterior, The Traffic Lights Turn Blue Tomorrow. Para Ekner e muitos de seus personagens, o rugido coletivo das arquibancadas funcionou como contrapeso vital ao isolamento do luto.

O filme rejeita a perspectiva distanciada do jornalismo esportivo tradicional em favor de uma abordagem mais lírica e imersiva. Combinando registros sonoros de campo captados ao redor do mundo e material de arquivo, Ekner captura a sobrecarga sensorial da experiência "ultra": a névoa densa dos sinalizadores, os cânticos ritmados e a proximidade sufocante da multidão. Por meio de sequências em câmera lenta e closes cerrados, ela traduz o conceito abstrato de "fanatismo" em um estudo tangível, quase tátil, da conexão humana.

Embora Ultras reconheça as faces mais sombrias do movimento — a organização de massa necessária para essas manifestações frequentemente resvala no hooliganismo —, o documentário funciona sobretudo como uma investigação sobre a natureza do pertencimento. Ekner relata a história de uma jovem que rejeita a segurança asséptica do camarote VIP para se aproximar do "perigo" das arquibancadas. É justamente essa tensão entre a ameaça de violência e o senso profundo de liberdade comunitária que define a identidade ultra, enquadrando o estádio como um dos últimos espaços remanescentes para a emoção coletiva sem freios.

Com reportagem de Little White Lies.

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