Em 1977, uma jovem de 17 anos chamada Doris Young respondeu a um anúncio no The Straits Times, de Singapura, que procurava alguém "bonita, sexy e igualmente rápida com as mãos e com a cabeça". A vaga era para o papel de uma agente da Interpol num thriller de espionagem — papel que Young conquistou entre centenas de candidatas. Com o nome artístico Marrie Lee, uma homenagem à lenda das artes marciais Bruce Lee, ela se tornou o rosto de They Call Her… Cleopatra Wong (1978), filme que viria a ocupar um lugar singular na história do cinema do Sudeste Asiático.

Dirigido pelo cineasta filipino Bobby A. Suarez, o longa era uma síntese de alta voltagem entre a estética de meados do século e as tendências de gênero que circulavam pelo mundo. Bebia na franquia James Bond e nos sucessos da blaxploitation americana, como Cleopatra Jones, ao mesmo tempo em que se ancorava na coreografia cinética do cinema de ação de Hong Kong. Como operativa da Interpol que desmantela uma rede de falsificação de moeda, Young executava suas próprias cenas de risco — abrindo espaço para a protagonista feminina asiática numa época em que papéis assim eram raríssimos na distribuição internacional.

A influência do filme persistiu nas margens do cinema cult por décadas, sendo citado por Quentin Tarantino como referência central para a linguagem visual e temática de Kill Bill. Agora, uma nova restauração resgata Cleopatra Wong da ameaça do esquecimento. Ao limpar o grão e refinar os quadros dessa relíquia de 1978, os arquivistas fazem mais do que preservar um filme de gênero: documentam um experimento transcultural decisivo, que redefiniu a figura da estrela de ação regional.

Com reportagem de Little White Lies.

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