A fascinação de Catherine Breillat por Rhett Butler parece uma falha na matriz do cinema transgressor francês. Na nova coletânea de entrevistas I Only Believe in Myself, a diretora de alguns dos filmes mais confrontadores dos últimos cinquenta anos invoca repetidamente o arquétipo do Hollywood clássico interpretado por Clark Gable. Para uma autora cujo trabalho já foi banido, censurado e celebrado por seu olhar implacável sobre a sexualidade humana, a referência a um cinema governado pelo restritivo Código Hays é um paradoxo notável.
Contudo, é justamente essa tensão que define a carreira de Breillat. Embora ela nutra uma afinidade secreta pelo charme polido de Gone with the Wind, sua linhagem artística remonta mais diretamente à "violência absoluta" do poeta Comte de Lautréamont. Breillat opera sob a convicção de que a beleza não é consolo — é algo que "deveria ser cruel e assustador". Do romance de estreia em 1968, L'Homme facile, publicado quando ela tinha apenas dezessete anos, ao seu filme mais recente, Last Summer (2023), a diretora buscou consistentemente desmontar as fronteiras entre o privado e o público, o erótico e o grotesco.
O cinema de Breillat recusa a segurança da condenação moral. Em Last Summer, ela retrata o caso de uma advogada com o enteado adolescente sob um olhar clínico, desprovido de julgamento, que desafia o desejo do espectador por uma resolução ética fácil. Essa recusa a desviar os olhos — seja da vulnerabilidade de um corpo adolescente, seja dos detalhes viscerais da transgressão física — é sua marca registrada. Como observa nas entrevistas, Breillat não sente vergonha em retratar "todo tipo de depravação", enxergando nisso não uma provocação pela provocação, mas uma exploração necessária da condição humana.
Com reportagem de 3 Quarks Daily.
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