No cânone do pensamento ocidental, eros costuma ser relegado a um de dois extremos: caminho transcendente rumo ao divino ou disrupção caótica e irracional da ordem social. Essa divisão maniqueísta deixa pouco espaço para as realidades estruturais — e confusas — da intimidade moderna. Em seu trabalho recente, Love Troubles: A Philosophy of Eros, Federica Gregoratto tenta transpor essa lacuna, propondo uma filosofia crítica que trata o amor não como ideal estático, mas como lugar de profunda complexidade normativa.

O projeto de Gregoratto se distingue pela recusa a simplificar. Em vez de apresentar o amor como um bem inequívoco ou como construção social puramente opressiva, a autora o enquadra como um "trouble" — uma fricção persistente e necessária. Sua abordagem é meticulosamente normativa: busca estabelecer um arcabouço para a maneira como deveríamos nos relacionar com o desejo, sem ignorar as assimetrias de poder e as complexidades psicológicas que definem a conexão humana.

Ao ultrapassar polarizações reducionistas, o livro convida a uma interrogação mais sofisticada sobre como nos relacionamos uns com os outros. Sugere que os "troubles" do amor não são defeitos de sistema a serem corrigidos, mas características centrais da experiência humana que exigem um vocabulário filosófico mais nuançado. Ao fazê-lo, Gregoratto oferece uma atualização indispensável à filosofia do eros — uma atualização que soa ao mesmo tempo intelectualmente rigorosa e profundamente sintonizada com as ansiedades da era contemporânea.

Com reportagem de Notre Dame Philosophical Reviews.

Source · Notre Dame Philosophical Reviews