Quatro anos após a invasão em larga escala da Ucrânia — e doze desde a anexação da Crimeia —, a natureza do conflito deixou de ser uma manobra geopolítica e se converteu em projeto existencial. No ecossistema midiático russo, a destruição da infraestrutura ucraniana e a morte de civis já não são danos colaterais a serem justificados; são objetivos a serem celebrados. Essa mudança reflete uma transformação mais profunda e mais perturbadora no tecido social russo, onde a retórica genocida do Estado encontrou morada permanente.

Observadores costumam dividir a sociedade russa em dois campos: a imagem chancelada pelo Estado de uma nação unida no sacrifício, e a leitura dissidente de uma população silenciada pelo medo. A primeira sugere uma vontade monolítica; a segunda pressupõe uma sociedade de opositores ocultos à espera de um degelo. Essas dicotomias, porém, talvez já não deem conta da complexidade do momento. A realidade não se encontra num meio-termo nem numa média estatística de dissidência, mas numa fusão psicológica.

A performance prolongada de lealdade alterou de forma fundamental quem a pratica. Numa sociedade em que a sobrevivência depende da mimetização pública da ideologia estatal, a distinção entre a máscara e o rosto acaba por desaparecer. O que começou como adaptação estratégica ao autoritarismo se solidificou, pelo tempo e pela repetição, numa nova identidade nacional. A tragédia da era atual não é apenas a guerra em si, mas o modo como ela reescreveu a lógica interna da sociedade que a conduz.

Com reportagem de Liberties Journal.

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