Euphoria, da HBO, sempre operou numa versão hiperestilizada da realidade — definida por niilismo cintilante e drama adolescente operático. Mas a recente estreia da terceira temporada, que avança cinco anos no tempo, introduziu um elemento de enredo que até os fãs mais devotos estão tendo dificuldade de engolir: uma entrada sem atrito no mundo profissional.

Numa cena ambientada em Los Angeles, Maddy Perez (Alexa Demie) tenta garantir uma vaga com uma poderosa executiva de Hollywood ao abordá-la de surpresa num restaurante. Depois de ouvir que não há posições abertas, Maddy entrega um monólogo que funciona como manifesto da trabalhadora "anti-privilegiada". "Eu sei que a minha geração se acha no direito de tudo, mas eu não acredito que ninguém me deve nada", diz ela à executiva, acrescentando: "Eu não vou ser um pesadelo para o RH, e eu acredito no capitalismo." Após atender o telefone da executiva para demonstrar competência, é contratada na hora.

Para uma geração que navega um mercado de trabalho definido por filtros automáticos de currículo, "vagas fantasma" e processos seletivos exaustivos com múltiplas etapas, a cena parece menos um estudo de personagem e mais uma relíquia de uma era cinematográfica que já passou. O clichê do "azarão determinado" — em que garra e um discurso no momento certo contornam toda a burocracia do recrutamento moderno — colide frontalmente com a realidade vivida pelo público-alvo da série. Na economia de hoje, acreditar no capitalismo raramente substitui uma indicação no LinkedIn ou uma checagem de antecedentes aprovada.

Com reportagem de Fast Company.

Source · Fast Company