Durante décadas, a política sueca foi definida por um rígido cordon sanitaire — uma recusa coletiva dos partidos tradicionais em conceder aos Democratas da Suécia (SD) qualquer proximidade com o poder Executivo. Essa barreira vem se desgastando há anos, mas as manobras internas mais recentes do partido sugerem que seu colapso definitivo é iminente. Segundo reportagem do Dagens Nyheter, o SD está circulando nomes de potenciais candidatos a ministro — um sinal claro de que a legenda se prepara não apenas para influenciar políticas públicas dos bastidores, mas para ocupar assentos na mesa do gabinete, caso a coalizão de direita Tidö vença a próxima eleição.
A mudança é significativa tanto em escala quanto em simbolismo. Desde que entrou no Riksdag, em 2010, o SD passou de pária a fiador de maiorias. O Acordo Tidö, de 2022, já representou um divisor de águas: o partido forneceu a maioria parlamentar que instalou o governo de Ulf Kristersson em troca de concessões formais em imigração, segurança pública e energia. Mas o SD permaneceu fora do gabinete — uma distinção que seus críticos consideravam essencial e que seus líderes passaram a enxergar como artificial. A movimentação atual sugere que essa distinção está com os dias contados.
De partido de apoio a partido de governo
A transição de um papel de sustentação parlamentar para a governança formal representa uma mudança qualitativa na postura institucional do SD. Circular uma lista de candidatos a ministro é o tipo de trabalho preparatório associado a partidos que esperam governar, não apenas negociar. Isso pressupõe estruturas internas capazes de avaliar quadros, administrar pastas e absorver o peso burocrático que acompanha a responsabilidade executiva.
Essa profissionalização segue um padrão visível em movimentos populistas europeus que cruzaram a fronteira entre oposição e poder. O Fratelli d'Italia, de raízes pós-fascistas, passou por processo semelhante antes de Giorgia Meloni se tornar primeira-ministra, em 2022. O Partido dos Finlandeses entrou em um governo de coalizão em 2023, aceitando pastas ministeriais e os compromissos que as acompanham. Em cada caso, o ato de governar impôs disciplina — e restrições — que a oposição pura jamais exigiu. O SD parece estar estudando o mesmo roteiro.
Para a Suécia em particular, a perspectiva de ministros do SD toca um nervo que vai além da aritmética de coalizão. O modelo sueco — o Estado de bem-estar social abrangente, a cultura política de consenso, a autoimagem internacionalista — foi construído e mantido sobretudo pelos Social-Democratas ao longo da maior parte do século XX. A entrada de um partido nacional-populista no Executivo representa não apenas uma troca de nomes, mas um desafio às premissas incrustadas no próprio aparato estatal.
Uma mudança estrutural na arquitetura política sueca
A questão mais ampla é o que a participação formal no gabinete significaria na prática. Arranjos de apoio parlamentar permitem influência sem responsabilização direta; pastas ministeriais invertem essa equação. O SD passaria a ser dono dos resultados — arbitragens orçamentárias, falhas administrativas, incidentes diplomáticos — de uma forma que o apoio externo nunca exigiu. Se a base do partido, construída em parte sobre um sentimento anti-establishment, toleraria os inevitáveis compromissos da governança é uma pergunta que segue em aberto.
Há também a questão da dinâmica interna da coalizão. Os partidos do Tidö — Moderados, Democratas Cristãos e Liberais — aceitaram o apoio do SD em 2022 com graus variados de entusiasmo. Absorver o SD no gabinete exigiria renegociar não apenas políticas, mas poder. Quais pastas o SD reivindicaria? Os Liberais, já pressionados pelo arranjo atual, permaneceriam na coalizão? A lista interna de nomes reportada pelo Dagens Nyheter é, nesse sentido, tanto um sinal de negociação para potenciais parceiros de coalizão quanto um exercício de planejamento interno.
A paisagem política sueca está sendo remodelada por forças que não são exclusivamente suecas nem inteiramente importadas. A erosão do cordon sanitaire reflete um realinhamento continental no qual as fronteiras entre a direita tradicional e a direita populista se tornaram quase irrelevantes em vários países. O que distingue o caso sueco é a velocidade da transformação — da exclusão parlamentar à possível participação no gabinete em cerca de quinze anos — e a profundidade do consenso que ela desloca. Se a institucionalização do SD fortalecerá a governança sueca ou desestabilizará o modelo de coalizão que a sustentou por tanto tempo depende de variáveis que nenhuma lista de candidatos a ministro é capaz de resolver.
Com reportagem do Dagens Nyheter.
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