Erik Helmerson, escritor e colunista sueco, publicou um novo romance que imagina uma Suécia de futuro próximo na qual a devoção nacionalista substituiu, na prática, a fé religiosa como estrutura moral do país. O livro, resenhado pelo Dagens Nyheter, encena o confronto entre as exigências de um Estado etnonacionalista e as obrigações humanitárias que tradições religiosas e liberais sempre reivindicaram como fundamento. No centro da trama está um protagonista que traiu refugiados em nome da pureza nacional — e que precisa encarar a questão de se alguma autoridade, divina ou não, vai responsabilizá-lo.
A premissa é especulativa, mas a matéria-prima não é. O cenário político sueco mudou de forma acentuada na última década: a política migratória passou de uma das mais permissivas da Europa a uma postura consideravelmente mais restritiva. Os Democratas da Suécia, partido com raízes em movimentos de extrema direita, tornaram-se partido de apoio parlamentar à coalizão governante em 2022, redesenhando os termos do debate público sobre identidade, pertencimento e coesão nacional. A ficção de Helmerson não reproduz a política atual ponto a ponto, mas se alimenta de uma atmosfera que leitores suecos reconhecem de imediato.
O altar do Estado
A premissa central do romance — a de que a devoção patriótica pode funcionar como religião substituta — pertence a uma longa tradição do pensamento político. O conceito de religião civil, formulado de maneira célebre por Jean-Jacques Rousseau e depois adaptado pelo sociólogo Robert Bellah em sua análise da vida pública americana, descreve como Estados geram símbolos sagrados, rituais e vocabulários morais que espelham os da fé organizada. Helmerson parece levar essa ideia ao limite lógico: uma sociedade em que a exigência de lealdade ao Estado não apenas corre em paralelo à obrigação religiosa, mas a deslocou ativamente.
Esse deslocamento tem peso específico no contexto sueco. A Igreja da Suécia, historicamente uma igreja estatal até sua separação formal do governo em 2000, posicionou-se nas últimas décadas como voz em defesa dos direitos de refugiados e da preocupação humanitária — por vezes em tensão direta com os ventos políticos predominantes. Um romance que pergunta o que acontece quando essa voz é silenciada ou tornada irrelevante dialoga com uma fratura institucional e cultural real.
Helmerson, segundo a resenha, evita a armadilha do panfleto simplista. Em vez de construir uma peça moralista com heróis e vilões bem definidos, a narrativa se detém na psicologia da cumplicidade: as pequenas concessões, os silêncios estratégicos, a erosão gradual de princípios que permitem a um indivíduo participar de uma crueldade sistêmica enquanto preserva uma autoimagem de decência. Esse território já foi explorado na literatura europeia — de Günter Grass e seu acerto de contas com a culpa alemã às provocações de Michel Houellebecq sobre a rendição cultural francesa —, mas cada contexto nacional produz suas ansiedades particulares.
A consciência como motor narrativo
A pergunta central do protagonista — se Deus vai julgá-lo por ter traído refugiados — funciona menos como proposição teológica do que como dispositivo para explorar a responsabilização moral numa sociedade que reestruturou seu sistema de valores. Quando o Estado define virtude exclusivamente em termos de lealdade à nação, as fontes tradicionais de autoridade moral — escritura, consciência, direitos humanos universais — tornam-se subversivas. O romance, por esse ângulo, interessa-se pelo que acontece com indivíduos que ainda carregam dentro de si essas estruturas morais mais antigas, mesmo quando a cultura pública já seguiu adiante.
O romance especulativo como veículo de ansiedade política tem história recente robusta na Escandinávia. Autores de diversos países nórdicos usaram cenários de futuro próximo para examinar a fragilidade do consenso social-democrata, o apelo da simplicidade autoritária e a tensão entre abertura e coesão. A contribuição de Helmerson parece acrescentar uma dimensão especificamente religiosa a essa conversa, perguntando se sociedades seculares que abandonam seus vocabulários éticos herdados ficam vulneráveis a credos substitutos menos misericordiosos.
O que permanece sem resolução — e talvez de propósito — é se o romance trata a fé religiosa como contrapeso genuíno ao excesso nacionalista ou apenas como outra forma de mitologia coletiva, não mais confiável do que a ideologia que combate. A tensão entre essas leituras pode ser exatamente o ponto. Uma sociedade que debate os termos do pertencimento debate também, inevitavelmente, as fontes de autoridade moral — e se alguma delas resiste quando a pressão é suficiente.
Com reportagem do Dagens Nyheter.
Source · Dagens Nyheter



