Em 1864, o cientista Benjamin Apthorp Gould se propôs a quantificar o corpo americano. Encarregado de examinar milhares de soldados da Guerra Civil e estudantes, Gould utilizou o espirômetro — instrumento recém-desenvolvido — para medir a capacidade pulmonar. O que emergiu de seus dados foi menos um censo médico do que uma narrativa codificada de diferença racial. Gould alegou uma disparidade "notável" entre a função pulmonar de pessoas negras e brancas — achado que espelhava convenientemente as justificativas pseudocientíficas usadas para defender a escravidão.
Não se tratava de mera nota de rodapé histórica; o achado se tornou parte da infraestrutura médica. As premissas de Gould foram embutidas nas equações que convertiam leituras brutas do espirômetro em diagnósticos clínicos. Essa "correção racial" rebaixava, na prática, o limiar do que era considerado "normal" para pacientes negros. Uma leitura que sinalizaria comprometimento respiratório em um paciente branco era classificada como saudável em um paciente negro — institucionalizando um duplo padrão sob o verniz de dados objetivos.
O legado do levantamento de Gould se mostrou extraordinariamente resiliente, sobrevivendo muito depois de as estruturas sociais do século 19 terem sido desmontadas. Foi apenas em 2022 que a American Thoracic Society e a European Respiratory Society finalmente recomendaram a remoção das correções baseadas em raça das equações de função pulmonar. A demora expõe uma tensão fundamental na ciência: a facilidade com que o viés social, uma vez traduzido na linguagem da mensuração, consegue se passar por fato imutável ao longo de gerações.
Com reportagem de Blog of the APA.
Source · Blog of the APA



