Por quase um século, a bolsa Guggenheim funcionou como um dos principais termômetros da produção intelectual e cultural nos Estados Unidos. Ser um "Guggenheim Fellow" significa receber uma espécie de consagração de meio de carreira, acompanhada dos recursos necessários para desenvolver um trabalho livre das amarras institucionais habituais. No entanto, uma análise recente de cem anos de dados sobre as bolsas sugere que a definição de "capacidade extraordinária" adotada pela fundação passou por uma transformação profunda.
Os dados revelam uma divergência acentuada nas prioridades históricas da fundação. Em suas primeiras décadas, a Guggenheim era um bastião das ciências naturais e das humanidades — campos em que a pesquisa rigorosa, frequentemente baseada em arquivos ou laboratórios, constituía o alicerce da premiação. Ao longo do último século, porém, a fatia de bolsas concedidas a esses acadêmicos tradicionais encolheu de forma constante. Em seu lugar, emergiu um novo arquétipo: o praticante das artes criativas.
Essa virada em direção às artes criativas — pintores, romancistas, performers — representa mais do que uma mudança de preferência demográfica; sinaliza uma reavaliação do que constitui contribuição ao bem público. Num momento em que as humanidades enfrentam uma crise mais ampla de relevância dentro da academia contemporânea, a guinada da Guggenheim reflete um cenário em que a produção tangível do artista é cada vez mais valorizada em detrimento do trabalho iterativo, muitas vezes invisível, do cientista ou do historiador.
Com reportagem de Arts and Letters Daily.
Source · Arts and Letters Daily



