A recente virada eleitoral na Hungria chegou com uma contundência que poucos observadores — mesmo os mais céticos quanto à longevidade de Viktor Orbán — haviam previsto de fato. A conquista de uma maioria de dois terços pela oposição representa mais do que uma simples troca de governo; oferece um mandato raro para desmontar a arquitetura constitucional do "Estado iliberal" que Orbán passou mais de uma década erguendo. Esse realinhamento sugere que a maré populista na Europa Central pode não ser um traço permanente da paisagem política, mas um ciclo que agora atinge seu ponto de esgotamento.

O colapso do governo do Fidesz foi acelerado por uma série de erros estratégicos e pressões externas. A presença do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, tentando enquadrar o debate em torno de influência estrangeira, soou aos eleitores como uma ironia absurda. Enquanto isso, o líder oposicionista Peter Magyar conseguiu usar a interferência ostensiva de Vladimir Putin para evocar memórias históricas da agressão russa, neutralizando com eficácia o apelo nacionalista que durante anos serviu como principal escudo de Orbán.

As ondas geopolíticas desse resultado devem ser sentidas com mais intensidade em Bruxelas e Bratislava. Com Orbán fora do jogo, o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico perde seu aliado mais importante na União Europeia, o que pode abrir caminho para a reforma dos poderes de veto que há tempos paralisam a ação coletiva do bloco. Essa mudança promete acelerar a adesão da Ucrânia e da Moldávia ao projeto europeu, ao mesmo tempo em que desfere um golpe retórico significativo nos movimentos populistas mais amplos que hoje lutam para manter terreno pelo continente.

Com reportagem de Crooked Timber.

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