Durante boa parte do século 20, o consenso entre a elite intelectual era de que a religião batia em retirada definitiva. Em 1902, William James a descartou como provável "anacronismo"; nos anos 1950, o sociólogo C. Wright Mills previu que o sagrado acabaria confinado à esfera estritamente privada. Não eram apenas observações, mas pressupostos fundacionais do projeto liberal moderno: a crença de que o "báculo" havia sido separado da "espada" de forma bem-sucedida e irreversível.

Essa separação, ao que tudo indica, foi apenas provisória. Em todo o mundo, assistimos a um "segundo casamento" entre religião e poder estatal. O fenômeno não é mero reavivamento da fé, mas uma reentrada estratégica de reivindicações religiosas na engrenagem da governança. Nos Estados Unidos, essa virada se materializa em iniciativas como a Religious Liberty Commission, onde o próprio conceito de "liberdade" vem sendo sutilmente redefinido. Em vez de proteger o direito à prática privada, a nova eclesiocracia busca a liberdade de projetar valores religiosos sobre o espaço público e o ordenamento jurídico.

O fenômeno cria uma armadilha retórica peculiar. Quando críticos apontam os riscos de fundir dogma religioso com autoridade política, são frequentemente acusados de tentar suprimir a própria religião. Essa inversão sugere que o triunfo secularista era talvez mais frágil do que seus defensores imaginavam. À medida que a religião retoma seu assento nos corredores do poder, os sistemas que moldam nosso futuro se parecem menos com as utopias racionalistas do passado e mais com um retorno a padrões mais antigos — e mais voláteis — de organização humana.

Com reportagem de Liberties Journal.

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