Um juiz do tribunal distrital de North Holland submeteu pedidos com base na Lei de Governo Aberto (Woo) a todos os municípios dos Países Baixos — uma campanha que, pelo número de destinatários, equivale a milhares de solicitações individuais. Segundo reportagem da plataforma investigativa Follow the Money, a intenção do magistrado era chamar atenção para o que ele considera "abuso" sistêmico da legislação de transparência. Autoridades municipais, no entanto, reagiram, afirmando que o juiz estava "apenas ocupado em forçar a lei" em vez de buscar reformas pelos canais institucionais convencionais.
O episódio coloca um ator incomum — um magistrado em exercício — no centro de um debate que fervilha no direito administrativo holandês há anos. A Lei de Governo Aberto, conhecida pela sigla holandesa Woo, substituiu a antiga Wet openbaarheid van bestuur (Wob) e foi concebida para tornar as informações governamentais mais acessíveis por padrão. Desde sua implementação, municípios e órgãos nacionais enfrentam dificuldades para equilibrar o direito público à informação com a carga administrativa de processar os pedidos.
Um juiz do outro lado do balcão
O que torna o caso atípico não é o volume de pedidos — solicitações seriais com base na Woo são um fenômeno conhecido — mas a identidade de quem os apresenta. Juízes nos Países Baixos normalmente lidam com disputas de transparência a partir do tribunal, decidindo se um órgão público recusou ou atrasou a divulgação de forma legítima. Quando um membro do Judiciário assume o papel de solicitante, e o faz em escala nacional, borra-se uma fronteira que a cultura jurídica holandesa tradicionalmente manteve nítida. A iniciativa levanta questões sobre os limites da conduta judicial fora do tribunal e sobre se a posição profissional de um magistrado confere peso indevido — ou credibilidade — ao que é, formalmente, um direito de qualquer cidadão.
Críticos dentro da administração municipal parecem enxergar a campanha menos como denúncia e mais como provocação processual. A queixa de que o juiz estava "apenas ocupado em forçar a lei" sugere que os gestores locais interpretam os pedidos não como busca genuína por informação, mas como um teste de estresse imposto sem consulta prévia. Essa leitura ecoa uma queixa mais ampla: municípios menores, frequentemente operando com equipes jurídicas e administrativas reduzidas, argumentam há tempos que pedidos de Woo em grande volume — independentemente de quem os apresente — podem paralisar as operações cotidianas.
Legislação de transparência sob pressão estrutural
A tensão não é exclusiva dos Países Baixos. Regimes de acesso à informação em toda a Europa e na América do Norte enfrentam um paradoxo recorrente: as leis existem para garantir prestação de contas, mas seus mecanismos podem ser convertidos em instrumentos de perturbação — seja por ativistas, por empresas de coleta comercial de dados ou por indivíduos com queixas contra órgãos específicos. Legisladores tentam periodicamente distinguir pedidos de boa-fé de pedidos abusivos, mas traçar essa linha sem comprometer a finalidade da lei tem se mostrado difícil em toda jurisdição que tentou.
No contexto holandês, a Woo foi parcialmente concebida para enfrentar esse problema, deslocando a cultura governamental em direção à divulgação proativa — publicar informações antes que alguém precise solicitá-las. O avanço nessa frente tem sido desigual. Quando a divulgação proativa fica para trás, o mecanismo de pedidos absorve a pressão, e os debates sobre "abuso" se intensificam.
A campanha do juiz, quaisquer que sejam seus méritos processuais, conseguiu trazer à superfície uma questão estrutural que a reforma administrativa sozinha não resolveu: se o sistema não consegue dar conta do volume de pedidos que sua própria legislação autoriza, o problema é de quem pede ou do sistema? Autoridades municipais e órgãos de ética judicial podem chegar a respostas diferentes. O Conselho Holandês para o Judiciário (Dutch Council for the Judiciary), responsável pelos padrões de conduta judicial, pode ser pressionado a esclarecer se o ativismo extrajudicial de um magistrado em exercício está dentro dos limites aceitáveis — ou se compromete a aparência de imparcialidade da qual o tribunal depende.
As duas forças agora estão em tensão aberta. Defensores da transparência verão um juiz disposto a demonstrar, por experiência própria, que o sistema está quebrado. Gestores municipais verão um membro do Judiciário explorando exatamente a disfunção que chega às suas mesas todos os dias. A leitura que prevalecerá pode depender menos dos méritos dos pedidos de Woo em si do que de como as instituições holandesas tratarão o caso — como um problema de governança ou como uma questão disciplinar.
Com reportagem de NRC — Tech.
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