Na narrativa idealizada das artes e humanidades, a bolsa de pesquisa é um motor de transformação. Ela deveria oferecer os bens mais preciosos — tempo e financiamento —, dando a um pesquisador ou artista a liberdade de se afastar das restrições cotidianas da carreira para produzir trabalho de relevância duradoura. No entanto, uma pesquisa recente sugere que essas oportunidades estão cada vez mais concentradas em uma pequena elite já favorecida, reforçando hierarquias existentes em vez de rompê-las.
Em estudo publicado na Public Books, Dominique J. Baker, da University of Delaware, e Christopher T. Bennett, da RTI International, analisaram quase 30 mil prêmios concedidos por seis grandes programas, incluindo o Guggenheim e o National Humanities Center. Os resultados apontam para um persistente "Efeito Mateus" no meio acadêmico: a tendência de prestígio e recursos se acumularem nas mãos de quem já os detém. Em vez de funcionar como catalisador para pesquisadores cujas trajetórias seriam mais profundamente alteradas por esse tipo de apoio, as bolsas frequentemente operam como uma camada adicional de validação para quem já ocupa o topo da hierarquia institucional.
Os pesquisadores argumentam que esse ciclo é alimentado por uma combinação de redes de contato e vantagens cumulativas. O processo de conquistar uma bolsa de prestígio — da preparação inicial da candidatura à obtenção de cartas de recomendação de nomes de alto status — favorece indivíduos que já transitam em ambientes bem providos de recursos. Os dados mostram que vencedores de uma grande bolsa têm probabilidade significativamente maior de conquistar outras, e a ampla maioria dos contemplados permanece concentrada em um punhado de universidades de elite dos Estados Unidos.
Em última análise, o estudo sugere que justamente as pessoas para quem uma bolsa representaria a maior ruptura em relação à experiência cotidiana são as que têm menor probabilidade de recebê-la. Ao premiar o status já estabelecido, esses programas podem estar perdendo a oportunidade de apoiar o tipo de pensamento divergente que floresce fora dos centros tradicionais de poder institucional.
Com reportagem de Daily Nous.
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