Cerca de 5,96 milhões de anos atrás, o mar Mediterrâneo se tornou uma sombra do que fora. Durante o que os geólogos chamam de Crise de Salinidade Messiniana, o movimento tectônico do Estreito de Gibraltar isolou a bacia do oceano Atlântico. Sem conexão e castigadas pelo calor, as águas evaporaram, deixando para trás uma paisagem desolada de planícies de sal com quilômetros de espessura. Era uma cicatriz em escala planetária que permaneceu até a idade Zancleana, quando o Atlântico finalmente rompeu a barreira de volta.

Por anos, a narrativa dominante sobre essa reconexão tinha ares de violência cinematográfica. Conhecida como megainundação zancleana, a teoria — popularizada por um estudo de 2009 publicado na Nature — propunha um colapso tectônico súbito que teria criado uma catarata descomunal em Gibraltar. Segundo esse modelo, o Atlântico não simplesmente vazou de volta para a bacia; ele irrompeu com fúria, escavando um cânion profundo e reenchendo todo o Mediterrâneo num período que variava de poucos meses a alguns anos. Era uma imagem de convulsão geológica que parecia mais uma cena de blockbuster do que um processo terrestre gradual.

No entanto, reavaliações científicas recentes começam a introduzir nuance nessa visão "apocalíptica". Embora a imagem de uma ruptura massiva continue sendo um pilar da história do Mediterrâneo, pesquisadores se mostram cada vez mais céticos quanto à velocidade e à escala propostas pelo modelo de 2009. O registro geológico sugere que a transição pode ter sido menos um evento único e cataclísmico e mais uma série gradual de acontecimentos. À medida que se refina a compreensão dos deslocamentos tectônicos e dos níveis do mar antigo, a grande catarata de Gibraltar vai deixando de ser um evento literal para se tornar um mistério geológico mais complexo — e talvez mais silencioso.

Com reportagem de Xataka.

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