Em abril de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial chegava ao seu desfecho, a cidade medieval alemã de Halberstadt foi dizimada por bombardeiros B-17 americanos. Entre os sobreviventes estava Alexander Kluge, então com treze anos — um menino cuja vida se tornaria uma meditação permanente sobre aquela tarde singular. Para Jürgen Habermas, o eminente filósofo e contemporâneo de Kluge, ele permaneceu para sempre "a pessoa que foi bombardeada quando criança" — uma identidade forjada no apagamento súbito e violento de um mundo antigo e belo.
A resposta literária de Kluge ao evento, Air Raid, captura a dissonância surreal da sobrevivência por meio da figura de uma bilheteira de cinema. Mesmo com metade do teatro em ruínas e o porão tomado por mortos, a funcionária continuava a varrer os corredores, preparando-se para uma sessão que jamais aconteceria. É uma ilustração perturbadora do impulso humano de se agarrar ao hábito quando a realidade explodiu. Kluge sugere que somos frequentemente mais nós mesmos na adesão absurda e desesperada aos "velhos costumes" em meio aos escombros.
Embora Kluge fosse um herdeiro intelectual da Escola de Frankfurt, sua obra resistiu às estruturas normativas rígidas de seu mentor Theodor Adorno e às teorias sistemáticas de Habermas. Ele operava, em vez disso, num espaço de "absurdo indignado", encontrando algo a ser saboreado mesmo nas ruínas. Com as mortes recentes de Habermas e de Kluge neste mês de março, uma era específica da história intelectual europeia — definida pela memória direta do colapso total — recua enfim para o passado.
Com reportagem de 3 Quarks Daily.
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