Em 2005, quem abria Civilization IV não era recebido pelos habituais floreios eletrônicos da época, mas por uma versão coral arrebatadora do Pai Nosso, cantada em suaíli. "Baba Yetu", composta por Christopher Tin, era uma anomalia: uma peça de música litúrgica encomendada para um jogo de estratégia em grande escala. Soava ao mesmo tempo ancestral e imediata — uma obra coral à altura do escopo histórico do jogo e de sua obsessão pelo longo arco do progresso humano.
A origem da composição foi notavelmente modesta. Tin, filho de imigrantes de Hong Kong e compositor em ascensão na Califórnia, havia dividido quarto na faculdade com um dos designers do jogo. Quando o estúdio precisou de um tema que capturasse o espírito humano ao longo de milênios, recorreu ao velho amigo. A colaboração resultante ignorou as fronteiras convencionais da "música de game" e acabou rendendo a Tin um Grammy Award — o primeiro já concedido a um tema de videogame —, além de garantir um lugar permanente no repertório coral global.
Para além de seu mérito técnico, "Baba Yetu" funciona como lembrete da permeabilidade cultural das mídias digitais. Embora Civilization IV seja lembrado por sua natureza cronofágica e pela gravidade da narração de Leonard Nimoy, sua contribuição mais duradoura talvez seja justamente essa peça musical. Ela provou que o ambiente digital pode incubar arte de alto nível, transformando um favor entre ex-colegas de quarto em um hino universal que segue sendo executado em salas de concerto ao redor do mundo.
Com reportagem de Crooked Timber.
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