Em 1977, numa sonda de perfuração na vastidão congelante do Alasca, um "roughneck" — o peão braçal das plataformas de petróleo — passava suas horas de folga absorto num texto que parecia pertencer a outro universo, distante da lama e do óleo do Ártico. Depois de lavar a sujeira do dia e se recolher ao beliche, ele abria The Hite Report: A National Survey of Women's Sexuality. Não se tratava de uma curiosidade isolada; era sintoma de uma mudança cultural que penetrava até os ambientes mais remotos e tradicionalmente masculinos.

Publicado em 1976, The Hite Report era obra de Shere Hite, ex-modelo que se reinventou como pesquisadora autodidata de sexualidade. Sua metodologia era artesanal — uma abordagem de coleta de dados feita por conta própria que desafiava as perspectivas clínicas e frequentemente centradas no olhar masculino da época. O livro se tornou um fenômeno editorial, com vendas superiores a 50 milhões de exemplares, e alterou de forma profunda o debate público sobre intimidade e prazer feminino.

Apesar do sucesso comercial monumental e de sua influência marcante no tecido social dos anos 1970, a obra de Hite praticamente desapareceu da memória coletiva. A imagem de um homem numa plataforma de petróleo absorvido por suas revelações serve como lembrete de que a revolução feminista não foi um movimento confinado a um único nicho. Foi uma corrente intelectual difusa que forçou um acerto de contas com a conexão humana em todos os cantos da sociedade — da academia aos alojamentos do extremo norte.

Com reportagem de 3 Quarks Daily.

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