Em outro contexto geopolítico, Daria Egereva estaria em Nova York nesta semana, discursando no Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas. Ativista do povo Selkup reconhecida por seu trabalho no International Indigenous Peoples Forum on Climate Change, Egereva sempre funcionou como ponte entre as realidades ambientais do Norte da Rússia e o cenário global. Em vez disso, está presa num presídio russo, sob a ameaça de uma condenação de até 20 anos por terrorismo.
Egereva foi detida em dezembro junto com Natalya Leongardt, outra figura de destaque na defesa dos direitos indígenas. A acusação do Estado se apoia no envolvimento histórico de ambas com o Aborigen Forum, uma rede informal de ativistas dissolvida à força pelo governo dois anos atrás. Ao enquadrar a participação em grupos como esse como "terrorismo", o Kremlin criminalizou, na prática, o trabalho fundamental de preservação ambiental e cultural.
Cientistas políticos apontam que essas prisões funcionam como termômetro de uma fase mais ampla e agressiva de repressão doméstica, desencadeada após a invasão da Ucrânia. Ativistas indígenas, que frequentemente atuam na interseção entre direitos territoriais e proteção ambiental, costumam estar na linha de frente das investidas do Estado. A detenção dessas lideranças serve como laboratório para táticas que acabam sendo aplicadas contra feministas, advogados de direitos humanos e outros segmentos de uma sociedade civil cada vez mais encolhida.
A mensagem de Moscou é inequívoca: cooperação internacional em mudanças climáticas deixou de ser uma atividade neutra. Ao tratar a defesa dos direitos indígenas como ameaça à segurança nacional, o Estado desmonta as últimas estruturas que permitiam fiscalização ambiental independente nas regiões fronteiriças da Rússia, ricas em recursos naturais.
Com reportagem de Grist.
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