O silêncio de uma cidade sitiada nunca é de fato silencioso — é apenas despojado de sua ressonância digital. Em Teerã, na noite de 8 de janeiro de 2026, a ausência de sinais de SMS e internet criou um vácuo preenchido pelo ritmo percussivo dos disparos. Para uma jornalista que voltava da linha de frente dos protestos, o custo físico — pulmões pesados com o peso cáustico do gás lacrimogêneo e a voz reduzida a um fiapo de tanto gritar — era secundário diante do fardo psicológico de ser sobrevivente numa loteria de violência.
A repressão, descrita por observadores como um massacre, mirou os manifestantes com brutalidade cirúrgica, concentrando-se em cabeça, pescoço e peito. Nesses despachos, sobreviver não é enquadrado como triunfo de estratégia, mas como uma sequência de quase-mortes: a bala que encontra a pessoa atrás de você, o desvio repentino por um beco lateral ou simplesmente o fato arbitrário de que ainda não era a sua "vez". Essa aleatoriedade transforma o ato de estar vivo numa forma assombrosa de dívida, paga por aqueles que não voltaram para casa.
Na escuridão de um lar desconectado, o ato de escrever se converte numa tecnologia desesperada por si só. Quando o Estado corta os fios, a caneta serve como último elo com o mundo exterior — um meio de garantir que o sangue derramado nas ruas não seja apagado pelo vazio digital. Essas linhas, escritas para uma irmã mas destinadas a um futuro que parece cada vez mais incerto, são uma tentativa de se antecipar ao silêncio que sucede os disparos.
Com reportagem de Liberties Journal.
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