Na busca contemporânea pelo bem-estar, temos nos rendido cada vez mais à "instrumentalização" da existência — a tendência de enxergar cada ação não como um fim em si mesma, mas como ferramenta para alcançar um resultado específico, quase sempre utilitário. Em texto para o The Guardian, o filósofo Julian Baggini reflete sobre essa mudança, observando como o valor intrínseco de nossas experiências está sendo esvaziado por um foco implacável na função.
O exemplo mais marcante dessa tendência aparece na literatura da auto-otimização. Baggini recupera uma passagem de The Happiness Project, de Gretchen Rubin, na qual um momento de reconciliação conjugal é reduzido a uma transação biológica. Rubin descreve o gesto de abraçar o marido por pelo menos seis segundos — não apenas por afeto espontâneo, mas porque sabia que aquela era a "duração mínima necessária" para disparar a liberação de ocitocina e serotonina.
Esse enquadramento transforma uma conexão humana em sistema de entrega de substâncias químicas. Quando abraçamos alguém para modular nossos hormônios ou nos exercitamos unicamente para aumentar a produtividade, tratamos a própria vida como uma sequência de insumos projetados para gerar um retorno emocional previsível. É uma abordagem clínica do viver que sugere que já não somos capazes de valorizar um momento a menos que ele sirva a um propósito mensurável.
O perigo dessa mentalidade é que ela não deixa espaço para o "fim em si mesmo". Ao encarar a vida como um projeto a ser gerido e otimizado, corremos o risco de perder justamente aquilo que tentamos aprimorar: a experiência não mediada de estar vivo. Se cada gesto é um meio para um fim, o "fim" se torna um alvo móvel, sempre fora de alcance, soterrado pelo peso das nossas próprias métricas.
Com reportagem de 3 Quarks Daily.
Source · 3 Quarks Daily



