A American Council of Learned Societies (ACLS) anunciou sua turma de bolsistas de 2026, com destaque para dois filósofos cujo trabalho busca desmontar e reconstruir as narrativas históricas em torno de raça e capital global. Corey Barnes, da Northwestern University, e Rocío Zambrana, da University of Puerto Rico, Rio Piedras, representam uma inflexão no sentido de tratar tradições intelectuais marginalizadas com o rigor analítico normalmente reservado ao cânone ocidental.

O projeto de Barnes, "Race's Shadowy Subjects", examina as contribuições fundacionais de intelectuais negros do início do século XX — entre eles W.E.B. Du Bois, Anna Julia Cooper e Alain Locke — à ontologia da raça. Ao enquadrar a produção desses pensadores como filosofia formal, Barnes argumenta que raça não é um fato biológico estático, mas um conceito historicamente contingente, moldado por forças políticas. A reconstrução funciona como um corretivo a histórias intelectuais eurocêntricas que há muito relegam o pensamento negro à periferia da investigação filosófica.

Zambrana, por sua vez, dirige a atenção ao mundo ibérico do início da era moderna com "Metamorphosis of Value". Enquanto as histórias do capitalismo costumam se concentrar nas economias políticas britânica e holandesa, Zambrana explora os fundamentos filosóficos do tráfico escravista espanhol e português a partir do século XV. Seu trabalho investiga os "protocolos epistêmicos do capital" forjados pelo comércio de cativos, sugerindo que a própria natureza do valor foi transformada por esses sistemas coloniais inaugurais.

Juntos, os dois projetos indicam que parte do trabalho filosófico mais urgente da atualidade está nos arquivos. Ao reexaminar os sistemas que construíram o mundo moderno — da conceitualização da identidade ao nascimento dos mercados globais —, Barnes e Zambrana oferecem uma visão mais nítida das estruturas que continuam a governar a vida contemporânea.

Com reportagem de Daily Nous.

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